sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Meu Estribilho

Foi a terra que tremeu?
Não amor, fui eu!
O dia escureceu?
Não amor, fui eu...
O sol perdeu o brilho?
Não amor
O sol sem brilho
É só meu estribilho

Sol sem brilho
Sol sem brilho

A primavera desandou?
Não amor, meu inverno a matou.
O céu perdeu o azul?
Não, esse é o reflexo de minh’alma!
Mil matizes de cinza
Mil cinzas sem calma
Que giram como moscas
Sobre a carne putrefata
Da menina que mamou
Seu farto leite de fada
E morreu do veneno posto
Que sempre serve ao gosto
De quem pensa ser amada...

Um Vulto Teu





Dentro dos meus olhos
Habita um vulto teu
Embaçado pelo tempo
Impune
Ao esquecimento

Dentro dos meus olhos
Existe um livro teu;
Poesias, desenhos e prosas
Nele vejo e revejo
Histórias que foram nossas

Dentro dos meus olhos
Há uma lagoa em teu nome
Nela jazem afogadas lembranças
Pinturas borradas
Pela desesperança

Dentro dos meus olhos
Habita um vulto teu
Dos teus traços, uma escultura.
E a cegueira eterna
Que nasceu da falta tua
Dos abraços, noites, beijos...

Do nada que enxergo agora;
Somente a ti, vejo...


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Internos Diários

O caldo quente que jorra
Do vesgo dos meus olhos
Neste lamento
Tu não vês agora,
Estão cá dentro.
Jorram ao contrário
Molhando minhas entranhas
E internos diários...

sábado, 15 de setembro de 2007

Passos



Quando nasci
Puseram fios em minhas mãos
Pés, cabeça, costas, boca
Vestiram-me com certa roupa
No palco dei os primeiros passos

Passos valentes, passos em falso...

Tantas vezes recebi aplausos
Quantas me quebrei inteira
Na queda direta
Seqüelas perpétuas
Do cadafalso

Passos valentes, passos em falso...

Um dia meus fios caíram
Percebi certa autonomia
Andava, falava e ainda caia...
O palco deixou de ser moradia
Ia e vinha...

Passos valentes, passos em falso...

Enfim conheci a morte
Senhora soturna, belíssimo porte
Aprendi que sou igual a você
Você também tem fios
Glórias, desafios...

Passos valentes, passos em falso...

A vida é o palco de gozo e horrores
Vaias, aplausos,
Cadafalsos, abraços.
O palco é a vida...
E a vida é feita de passos

Passos valentes, passos em falso...

Por isso jamais
Desmarque algum ato
Desse espetáculo;
Cavalo de carrossel
Boca de tubarão...

Passos valentes, passos em falso...
Que passarão...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Noturna

Eu plantei sementes de poesia
Virou árvore frondosa
Frutas de poemas
Flores de prosas

Lenhador veio e cortou
Frases se espalharam na terra
Algumas morreram sem seiva
Outras morreram por medo
A maioria na queda

Sobrou um grupo de letras
Desoladas pela dor
Justo as letras que estavam
Nas poesias de amor

Fizeram buraco na terra
Viraram raízes eternas

Hoje meus versos confusos
Habitam no fundo
Sempre noturno
Do inverso do mundo


sábado, 25 de agosto de 2007

Sina

Nasci assim, sangrando...
Prossegui rastejando
Mordendo dedos foi como cresci
Os meus, os seus...dedos
Comendo o que estivesse no chão
Gritando muda
Dentro da escuridão
Alma encaixou-se
Meio violentada
Jamais, jamais!
Bem acomodada

Então não me irrite
Quando me jogo nos abismos
Quando sangro meu corpo
Quando busco a dor
Em qualquer estrada
E me lanço
Em qualquer viagem...

Nasci assim sangrando
E não me endireitaram
Jamais deixarei
De ser
Um ser
Selvagem...


quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Cegueira


Não consigo
Ficar sem respostas
É como ouvir o passaredo
Com venda nos olhos...

Busco respostas,
Assim...
Quando não consigo alcançar
No mundo aqui fora;
Dentro de mim...
Então vem a gangue
Dos profetas que moram nas tendas
Os que entraram há milênios
Pela tão falada fenda

Ouça!
Agora mesmo estão trabalhando
Sufistas, ciganos
Mestres africanos
Pajés, xamãs, sacerdotes
Dervixes, druidas, mães-de-santo
Médiuns de todos os cantos

Nada
Mente em branco...
Não acham a resposta
Morro um pouco na alma
Não há calma
Sem respostas
Não há vida
Sobrevivo
Andando sobre espinhos
E folhas mortas

Dez motivos para amar-te


Tenho dez motivos para amar-te
Teu jeito de menina mulher
Tua pose de quem sabe o que quer
Tua majestade sem coroa
Tua mania de rir a toa
Tua beleza de “lagoa azul”
Teu corpo nu
Teu ritmo de poema
Tua mente de Palas Athena
Teus olhos de mar
Tua forma de me olhar

E tudo isso se eu perder
Para alguém, em alguma parte...
Será o único motivo que terei
Para matar-te...


Heloisa Scorpio Galvez

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Letras Mortas



Transito

Entre palavras

Atropelo sílabas nas faixas brancas

Sei que sempre passo no farol vermelho

Esmago frases nos pneus traseiros

Buzino entre estrofes

Descabelo as mais esnobes

Vou sem freio pelo verso

Atravessando letras mortas

Na ré do caminho inverso

O mapa desse caminho

É uma aberração literária

Não me coloque no meio

De um soneto severo

Me desespero...

Regras são o côncavo do meu convexo

Meus olhos não têm acesso...

domingo, 12 de agosto de 2007

Malabarista

Ah se ela me visse cá embaixo
Será que sentiria a aflição?
Não!
Quando seus pés agarram a corda
Deve pensar só no caminho
O destino seguro do outro lado
Onde a esperam mascarados
Será que sabe que estou aqui toda noite?
Olhando ao alto com devoção?
Sentindo meu corpo elevar-se
E transformar-se no bastão
Que leva nas mãos?

Não!

Mal sabe que existo na platéia
Mal sabe que saio
Quando seu numero acaba
Ah! Mas sou eu o bastão
Que leva nas mãos
Como fiel escudeiro
Onde ela estiver, aonde for!
Sigo atrás como um fantasma
Mundo inteiro...
Qualquer paradeiro
Sou dela miasma...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Sempre a Fenda!

Pensamentos tantos
Antes fosse um
Apenas um caminho
E que fosse comum
Um
Um!

Meus pensamentos
São hermafroditas
Procriam-se por conta própria
Não há portas que os prendam
Super-heróis que os rendam

Ai a fenda
Mal-bem dita
Fenda
Me mata, me fascina
Não há mesmice
Nem descanso

Vem!
Ponha a mão em minha testa!
Veja porquê sou louca
Não!
Não teste!
Basta duvidar
Ela vai te sugar!

Vagará eternamente
Pelo planeta sem fim
Que há dentro de mim...

Quer?

domingo, 5 de agosto de 2007

Deuses Constelados - poesias do 1711




Deuses Constelados- poesias do 1711


Na segunda você acorda e ainda é lua,
Gira e rodopia pela cama,
Ainda sonha e anda nua pela rua,

Terça coloca uma faca na cinta-liga
Duas pulseiras largas no ante-braço
Sai a pé depois das dez e vira dona do pedaço

Quarta, escreve cartas e as entrega por conta própria
Encontro-te no meio de qualquer estrada
E vesga, lume no escuro da encruzilhada

Quinta acorda reluzindo, toma banho de mel
Marca 11 encontros , outorga 17 mortes
De noite rapta as virgens e faz que sangrem no céu

Sexta é sempre a mais bonita, no ar um cheiro de mar,
Abraça seu filho e lhe dá conselhos e asas,
Procura o mais belo dentro de todas as casas

Sábado é sempre soturna
veste-se de preto e se tranca no quarto
pensa enquanto cala, e tarde dorme numa urna

Domingo vai ao parque com a molecada
Desfaz-se de todos seus crimes
E numa pirueta tem de volta sua alma iluminada...




quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Eu Só Queria Ler um Livro



Quando eu era pequeno e lia um livro na varanda meu pai dizia
-Que livro menino vai surfar, olha o mar!
Eu ia surfar pensando no fim do livro e toda onda me engolia.
-Quando eu lia um livro no quarto e minha vó entrava ela dizia
-Guarda esse livro menino, vai jogar vídeo game.
Eu jogava vídeo game pensando no fim do livro e nunca ganhei jogo algum.
Quando eu passeava no shopping com minha mãe e queria entrar numa livraria ela dizia
-Que livraria menino, vamos ver aquela bermudinha ali!
Eu voltava pra casa com cinco bermudas, três camisetas dois óculos escuros pensando naquele livro da vitrine e esquecia as roupas na sala.
Numa viagem se eu estivesse lendo um livro, meu irmão falava
-Larga esse livro seu nerd, vamos brincar de cuspir pela janela!
Eu cuspia pensando no livro e melava toda porta do carro.
-Se eu lesse um livro no banheiro, minha irmã batia
-Larga esse livro pivete, vem jogar xadrez!
Eu ia jogar pensando no livro e sempre perdia.

Quando enfim cresci e ganhei o prêmio Nobel de literatura recebi uma carta
“Que bosta de prêmio heim menino, está deserdado. Vergonha da família!”.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Poesia

Ah esse mundo....
Cheio de armadilhas
Armas frias
Dias quentes
Almas vazias
Quartos fechados
Hipocrisia
Que é poesia?
Cantar ao vento?
Triste lamento?
Ilusão de ser poeta?
Blasfêmia!

Poesia tem essa apologia
Essa rima
Esse ritmo
Som de foles
Aroma de flor
Poesia
Bah!

Prefiro o alvo certeiro
A palavra ousada
Sem escapes...

Firo-me com o espinho dessa rosa
Um viva à PROSA!!!

(Vivian Guilhem)

sábado, 28 de julho de 2007

Fragmentos da Menina da Lancheirinha


Kardex...


Fiz um roteiro maluco, com certeza havia algum melhor, pegamos o trem em Paris para Le Mans (sim, a cidade das mil milhas) e depois mais um até Avranches, a cidade que nos disseram ficar mais próxima de Saint Michel.
O trem para Normandia não era em nada parecido com um TGV, rastejava lento como a paisagem, ao longe começaram a aparecer as primeiras casinhas típicas da Normandia, via as vilinhas gaulesas de “Asterix” que eu tanto amava, e numa elucubração imaginei “Kardex” ainda como druida divagando com “Panoramix” numa floresta:

-Um dia numa outra encarnação vou criar um nova religião...
-O que é religião?
-É fazer o povo acreditar, ter uma meta, algumas regras, fazer o bem...Acreditar em Cristo.
-Quem?
-Jesus; ainda não nasceu...
-Você quer alguma poção para febre? Logo ali há um carvalho.
-Por quê? Acha que estou maluco?Tenho visões!
-Acredito em suas visões, não acredito em intermediários entre homens e Deuses.É isso que me parece esse sistema que chama de religião.
-Hora, não somos mais ou menos isso?
-Claro que não, só conduzimos os ritos, os homens observam a natureza e de acordo com ela, a de fora e a de dentro, convocam os Deuses e procedem de acordo com sua ética, e assim dependendo de sua conduta, podem tornar-se um deles ou não. É nisso que acreditamos...
-Me parece desregrado demais..
-A tempestade avisa quando vai derrubar nossas casas? Os campos não nos surpreendem com boas ou más colheitas?
-Sim, por isso para trazer paz ao homem e não deixa-lo a mercê da natureza é que devemos protegê-lo...
-Se o homem fugir da Natureza que está fora, e não sofrer suas intempéries jamais vai saber cuidar de sua Natureza interior, mas não se ofenda com minhas palavras, também tenho minhas visões, em breve virão os romanos “reformados” e nos forçarão a transformar nossos Deuses em um. Deve ser este ao qual você se remete.
-Acha que devo fugir do meu destino?
-Não, mas tente ser uma pouco diferente, se é que me entende..

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Quem?


Entrei
Máquina do tempo
Templário loiro
Vi nos braços meus
Eu
Cigana escura
Vestido azul
Corpos nus
Adeus pela manhã
Ciganinha ruiva
espreitando
Nunca notei
Guerreiro partiu
Nunca voltou
Morri
Ciganinha chorou
E mais ninguém
Afinal
Você é quem?

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Tateando Paredes



Acordei tateando paredes
Porta do banheiro cadê
Interruptor cadê
Apenas eu e paredes
Labirínticas, anímicas...
Riram de mim,
Jogavam-me de um lado para outro
Quis gritar
Gesso, tinta, tijolos.
Calaram minha voz
Estava presa entre paredes
Nós de um marinheiro algoz

Paredes cerebrais
Estava dentro de mim mesma
Oi trapezista
Oi malabarista bipolar
Oi interno lar

Quero sair daqui
Falei
Saia
Falaram
Os anões me empurraram
Pelo buraco do ouvido
Sai de mim, enfim...
Vi a porta do banheiro,
E o interruptor
Luz! E consciência
Em breve estarei de novo
Entre as paredes psicodélicas
Feitas de massa cerebral
Para sempre
Meu itinerante,
Errante
Umbral...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Hipocritacriptamente

Ai Neruda, Florbela, ai Vinícius...Ai!
Não me levem a mal
Mas poesias de amor já embrejou faz uma cara
Passo mal...

Ó meu amor, que saudades tuas!
Ah, quantos dissabores nessa vida!
Onde estarás tu na noite escura?

Nossa que prefiro o buo da coruja...

Amor é amor e sobre ele tudo já foi dito
Que é lindo, que é dor, que é divino...
Que nos mata, nos revive...
Até eu hipocritacriptamente,
‘Inda escrevo sobre essa sandice
Demente...Mas olhe que meu verso mente...
Ou inventa, pra escrever de outro jeito...
O tantas vezes, melhor dito
Amor maldito!

Ai Pessoa, Bilac, ai!
Ai pior; poetas suicidas!
Morrer de amor, nomelocreo...
Tanto mel enjoa...
E eu que ainda tô nessa
Faço agora uma promessa
Poemas de amor nunca mais
Talvez um ou outro...
Capaz...

sábado, 21 de julho de 2007

Fragmentos da Menina da Lancheirinha



-Mamãe o que são górgonas?

Não tive a resposta num decreto, falei da relação com as gárgulas das catedrais que se mostravam monstruosas para afastar o mal. Não convenci nem a mim, e hoje precisei ver isso mais a fundo.

Giuliano explicou pra mim através de uma pergunta a conexão da minha “miopia” com o ser que eu era.
Minha “miopia” impediu que visse as górgonas da minha infância...Essas guardiãs do inconsciente que fazem de seu aspecto tenebroso, um aviso que ainda é cedo para entrar no reino interior e enxergar seu horrores, eu entrei muito cedo sem perceber, talvez não visse coisas tão medonhas assim, ou via e me adequava sem muito medo, por isso é tão difícil pra eu equacionar esses dois mundos. Sempre se intercalavam naturalmente...
Por isso tanta fantasia, por isso a coragem, por isso a falta de limites...

Por isso; eu...

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Bolinha de Borracha



A estrela sumiu
Faz muito tempo
Senti tanto sua falta
Morri um pouco no vácuo
Faltou ar, faltou água.
O chão sumiu,
Desanimação suspensa
Fiquei presa em Cronos
Anos...anos

Nesse tempo
Uma bolinha de borracha
Bateu na minha testa
A tal da testa aberta...
Entrou
Como tudo ali sempre entra
Ficou
Trapeziou
Me deslocou
Me entreteu

Foi então
Que a estrela, quem diria.
Apareceu
Voltou pra mim
E eu pra ela
Toda animada

Gira mundo
Mente gira
Gira estrela
Pula bola
Estrela na mão
Não quero mais
Entendi...
Sonhos racham
A estrela me consome
E eu só consigo pensar
Na bolinha de borracha

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Folha em Branco




Ando
Folha em branco
A mente escura
Tateando o nada
Cadê a fechadura?

A chave onde está?
Não há.
Perdi, aqui, ali,
Em algum caminho que segui
Ou não segui...

Rolha que não sai
Do gargalo do pensamento
Palavras apodrecem
Em ilegível lamento

Sílabas selvagens
Onde estão?
E aquelas conexões?
Reflexões corrosivas
Estarão vivas?

Viver é inventar
Frases no papel
Como flores num jardim
Frases cheias de espinhos
Espinhos que habitam em mim...

Onde estão as letras
E das letras, suas frases?
E das frases a prosa sônica?
A prosa; aquela rosa...
Cheia de versos-pétálas
Métrica perfumada
Regada com água tinta
Trôpega ou ritmada?

Meu jardim
De folhas rabiscadas
Seco de mim...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Jacaré dá

Um pé
De jacarandá
Jacaré dá

De menina via ovos
Balançando nos galhos
Da árvore do meu pomar
Crescida ao lado do rio

Primavera despertou
Ovinhos quebraram
Cascas sobre mim
Jacarezinhos no meu jardim

Queria guardar todos
Dentro de um bercinho
Nas meninas fiz lacinhos
Pros meninos comprei bola

Mas era o rio que eles queriam
E assim os fui perdendo
Os filhos meus, pequeninos
Nas águas partiram de mim

Foi quando peguei o machado
E jacarandá cortei
Tronco morto, virou jacaré
Que ali mesmo me engoliu

Fui dentro dele pelo rio
Jacarezando e rezando
Virei o que ele era, ele...Eu.
E sumi de mim pra sempre
Na primeira curva que apareceu...

Um pé
De jacarandá
Jacaré dá

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Em Cada Pedaço de Ti


Em cada pedaço de ti, habita um ídolo meu.

Nos pés de dançarina, entre o lastro e o suspende.
Sangra Lorca iluminado por seu terrível duende

Nas pernas longas e brancas, pontes do Himalaia.
Mira dançante, arrogante, intrépida tribo de Gaia.

Nas grutas escuras, puras, de sua púbis...
Sinto de Afrodite, o perfume embriagante!
Escravo incauto sigo adiante...

No ventre claro, e macio...
Vislumbro, Rosa’s
E a terceira margem do rio

No horizonte de seus seios
Que os xavantes guardam com receio
Escalo à marcha leve o roncado.
Encontro Fawcett, e seu Eldorado.

Nos ombros largos e precisos
Descanso entre Narcisos
E um Eco se faz aflito
Quando por seu corpo, eu grito!

Ah, pescoço de gueixa!
Quantas tentações nessas areias
Escalo dando-me a elas
Todos despudores de Sereia...

Boca desenhada por Doré
Entre estribilhos de Bach
E navegando neste barco
Caronte me leva soturno
Para o vinho de Baco

Nariz de ninfa rodeado,
Por uma ciranda de fadas-sardas
Farol da mais linda visão
Olhos de mar...
Azul Polar.

Em cada pedaço de ti, habita um ídolo meu
Cabelos rubros, selva de pocahontas
Nas mãos ciganas,
Minhas sílabas profanas
Os braços Kalicos
Seguram todos meus sonhos
Mágicos, tolos, anárquicos...

Em cada pedaço de ti, habita um ídolo meu.
E em mim por ti habita
O fogo de Prometeu.





quarta-feira, 11 de julho de 2007

Nascida Verme





Nascida verme plantei-me no lombo da vaca
Buraquei-me e cresci, cresci...
Moscas...
A cortejar-me
Moscas como companhia
Moscas, noite dia.
E a vaca me alimentando
Sangue, sangue.
Ninguém me viu
Até que engoli a vaca
Cruzei com o touro
Pari um ser torto
Semimorto
Que comi.
Nascida verme,
Avermelhei
O pasto e montes
Fiz rubro o horizonte
E morri no heróico laço
Do chefe do cangaço
Sou lenda na fazenda
Na cidade, mundo afora.
Nascida verme
Avermelhei o milharal
Os campos, cafezais.
Fiz de mim, ser imortal...
Berne, verme,

Feio?
Verme?
Nojo?

Só quem já nasceu verme,
Pode sentir,
Ah humanos!
Pobres...
Explicam dos seres a vadia existência
Sem viver a experiência
Sem jamais sentir o cerne
De um ser nascido verme...



sexta-feira, 6 de julho de 2007

O Amor Engorda




Antes dos trovadores
O amor não existia
Não assim feito paixãoIlusão e euforia
Era morno como banho de menina
Cauto como missa matutina

Cristandade ensinou; procriação.
Duas pessoas se uniam
Pelas leis da conveniência
Haja paciência,Era só papai mamãe
E um beijo gelado no rosto
Ah! Que era um sei lá, sem gosto.

Ai! Que então eles chegaram
Lá pelo século XII
Inventaram a dor do amor
Acenderam da paixão o fogo
Que lhes trouxe Prometeu
O alaúde fez amor com a trova
E esse Amor Eros nasceu

Então veio o desamor
E morte precoce
De desilusão
Almas desequilibradas
Neurótica obsessão

E essa foi acreditem;
A parte melhor
Pois se o amor paixão
Fizesse celebração
Que desastre!
Afrodite pôs maldição

Trovadores precursores
Do apetite sem limite
Dos amantes vitoriosos
Corpos esguios deram espaço
A silhuetas de ogro
Barrigas exageradas
Camas apertadas


Inventaram o colesterol
E com a mesa farta, o enfarto.
Celulite e estrias
Estômagos inchados de sapos
Peitos dentro das tigelas
Queixos engolidos por papos

E as Nádegas da matrona
Fez transformar a cadeira
Em suntuosa poltrona
Quem diria; trovadores!
Inspiraram novas tendências
Criaram os decoradores


Vá-te retro trovador!
Vá-te retro usurpador
Daquele meu corpo perfeito
Posso ver-me agora
Num quadro renascentista

Vá-te retro amor feliz!

Trovadores já morreram
Inventores do engordar
Quisera estivessem vivos
Pra que os pudesse matar!


Trovador hipercalórico
Empalo-te no pau da moldura
E querendo mesmo deixar rastro
Com a corda do teu alaúde
Satisfeita, te castro!


Vá-te retro Trovador!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Trapezista Dentro da Cabeça

desenho: Heloisa Galvez
Foi pela fenda em minha testa aberta há séculos que ele entrou, não sei de onde veio, nunca me contou. Imaginei ter sido expulso de um teatro mambembe por amor a bailarina, amante do palhaço Chupetinha, ou veio depois que o circo Irmãos Gabrielle, do circuito Natal/Mossoró faliu...

Instalou seu pequeno trapézio na capota do meu crânio, deve ter usado uma furadeira, e outras ferramentas inclementes, foi aquela dor de cabeça que tive e durou o dia todo.Desde então sinto o vento norte sul constante em minha mente.

Não é fácil ter instalado um trapezista na caixa craniana, assim com toda massa cinzenta como espaço embalativo...Não é fácil.

Mistura os pensamentos com inocente alegria, penso que se apaixonou pela malabarista bipolar que já nasceu neste lugar, desde que ele chegou, vou do céu ao inferno com uma freqüência maior, juntos sei que chamam outros artistas, o bufão Abenias que morava no meu sorriso, migrou paro o cerebelo.

O trovador Rimbauld que servia sincero meu coração, fez tenda no encéfalo. Estou destituída de mim.

O circo está crescendo, pelas noites cresce mais, os anões que eu mesma chamei há muito tempo pra dentro de mim, pra livrar minhas veias dos radicais livres de lembranças presas estão migrando pra cabeça, somam 340 segundo minha última conta.

São boêmios como deve ser todo artista, por isso acenderam com tochas minhas noites de sono. Durante o dia divago, tento, planejo pra logo mais como um castelo de cartas caído, tudo embaralhar de novo. O pior de tudo; o público.

Faz uns dias começaram a surgir entre lembranças, pessoas tantas que sentam no afofado das poltronas pineais para assistir ao espetáculo invejável que produzem ali. O mágico Van der Kaplan abriu todos meus baús de idéias hermeticamente lacrados, não sei, mas conseguiu, como só se consegue um mágico.

Ouço aplausos há cada duas horas, às vezes me é concedida uma entrada e assisto também...Não há como não chorar, cada pedaço de mim, fazendo em minha cabeça tamanha folia contando tantas histórias, histórias da minha vida.

Foi pela fenda da minha testa que ele entrou, montou a tenda azul e amarela, desfez as minhas rédeas, e em minha mente criou esse palco que se torna itinerante quando ando, tropeçando pelas travessas e esquinas, indo, vindo...Sem ter noção alguma de quem eu sou, ou onde estou.

Assim caminho sem saber porquê...O show é um sucesso, ouça os cambistas!Vendem o bilhete 10 vezes mais caro que o preço do trapezista...

Estou sem ação, sinto o vento norte sul constante em minha mente. Não é fácil ter instalado um trapezista na caixa craniana, assim com toda massa cinzenta como espaço embalativo...Não é fácil.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Fragmento da "Menina da Lancheirinha"- Uma Briga com Anita Malfatti


Fui uma criança de sorte, sempre tive em minhas mãos, todas as histórias que quis, Anderson, irmãos Grimm, Esopo, Charles Perrault, Lewis Caroll,Carlo Coloddi de Pinóquio, entre muitos outros. A maior parte de tudo isso descobri entre as páginas maravilhosas dos inacabáveis livros vermelhos do maior tesouro da minha infância! “O Mundo Da Criança!”
Claro que as noites com Monteiro Lobato com minha mãe, foi a primeira semente plantada nesse jardim mágico. Agradeço tanto a ela por isso...
Sei hoje que existem muitos grupos anti-Lobato, pelo fato deste ter criticado alguns artistas da semana de Arte Moderna de vinte e dois...

E daí?
Eu o admiro ainda mais por isso, não menosprezo as novas obras e artistas que ali se destacaram e deixaram seus nomes para sempre na história.
Mas como não concordar com monteiro Lobato ao dizer da obra de Anita Malfatti:

“Quando as sensações do mundo externo transformaram-se em impressões cerebrais, nós ‘sentimos’; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em ‘pane’ por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá ‘sentir’ senão um gato, e é falsa a ‘interpretação que do bichano fizer um totó (cão) um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes”.

Entendo completamente estas que por muito também foram minhas palavras muito antes de ter qualquer conhecimento dos proclames e repercussões que surgiram dessa semana. Sempre ao olhar um quadro abstrato, cubista ou “dissonante” demais, questionava que “a arte que precisa de explicação não pode ser chamada de arte”. Se a arte é feita para o publico não carece de um interprete cada vez que for apresentada.

E mais, Lobato sabia o dizia, afinal fora, desde o início de sua carreira, um pré-modernista. Irritado com os padrões oficiais de cultura, desvinculou-se das normas padronizadas da literatura, criando um estilo livre, avançado, valorizando a cultura nacional e discutindo temas voltados internamente para os problemas brasileiros! Mas não utilizava formas assimétricas porquê simplesmente não precisava de nenhum recurso, nem de linguagem ou estética, para escrever e principalmente encantar crianças de todas as partes e cantos, com a maior obra de literatura infanto-juvenil do Brasil.
Sim, sei que as palavras de Lobato levaram Anita a uma terrível depressão, mas ora! O artista tem que estar sujeito a isso, e desistir ao primeiro obstáculo, outorga a crítica de Lobato e a minha.
Anita, depois da ardorosa crítica, desviou sua arte para a “natureza morta” (nítida a simbologia que desviou sua obra para a mortalha) e deixou as aventuras de sua alma de lado.
Como diria mais tarde Mário de Andrade:

“Ela fraquejou, sua mão, e indecisa, se perdeu”.
Como fraquejar a mão? O instrumento do artista por causa de uma crítica?
Pobres são aqueles que só almejam elogios, e destroem suas artes ao primeiro ataque do verbo!
Lobato ainda falaria, tudo que um jovem artista, se comparado a um “alpinista” tem que dar ouvidos antes da escalada. Há que se escalar o monte, não pelo objetivo do cume, mas pela aventura do caminho bem percorrido, o cume é uma conseqüência que pode vir ou não, dependendo de sua habilidade, do saber-se esperar, e do poder prosseguir na hora certa e não desistir só pela nevasca leve que cai, mas ao perceber que o cume ainda está longe o bastante para suas habilidades de principiante.

“O verdadeiro amigo de um pintor não é aquele que o entontece de louvores; sim, o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chamente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás”

Lobato era um visionário, Anita não era artista de fato. Um artista não desiste da força que vem da sua alma! Desculpem-me seus fãs, mas fatos são fatos...

-Heloisa, este capítulo chama-se “Falando de Sexo”.
-Sim, e daí?
-Você falou de gnose, gnomos, irmão Grimm, Monteiro lobato, acabou com a Anita Malfatti e desenterrou mil citações, o que falou de sexo afinal?
-Agora você defende a Anita? Eu nada tenho contra ela, mas assumo minha postura crítica, sempre fui assim.
-Esqueça a Anita, minha pergunta foi o que falou sobre sexo?
-O que tinha que falar, não tenho culpa se não tinha mais.
-Ah, tem sim! Não vai me deixar aqui sem saber de tudo.
-Você esteve comigo, anta! Sabe que falei o que tudo quer que eu invente?Sabe que sou boa pra isso.
-Não, quero que descreva melhor e com mais detalhes seus raros momentos.
-Não vou fazer isso, já escrevi tudo do jeito que tinha que ser escrito.
-Você percebeu que fugiu do assunto assim que viu uma fenda no labirinto?
-Você virou uma devassa ou o quê?
-Quero saber porquê foge desse assunto.
-Eu deveria ter trancando melhor essa porta..
-Tonta só você acredita nessa metáfora idiota.
-Olha, não sei onde você está, mas eu estava bem, antes de saber que tinha que te buscar.
-Você estava uma merda! Lembra?Ou quer que eu fale?
-Cala a boca, o livro é meu!
-É nosso tudo que falta em você eu tenho em mim.
-Eu não quero virar uma devassa como você!
-Essa é boa, ambas sabemos que vai virar!
-Por sua causa!
-Sim, porquê você me baniu.
-E se não tivesse banido? Eu seria o quê? Uma dona de casa assistindo tv aos domingos?
-Não, mas talvez alguém que já estivesse em paz.
-Olhe, o que fiz, fiz, tinha que fazer e pronto! Estou voltando pra te buscar, depois veremos o que vai acontecer, enquanto isso fique quieta, assim só atrasa!
-Quer um conselho?
-Fala, já que vai falar mesmo.
-Mude o título do capítulo, coloque “Falando sem Nexo”
-Vaca!




sexta-feira, 29 de junho de 2007

Fofoletes Assassinas-Atentado 2


O Incêndio no Chiado


Fofolete Assassina.
Com seu pomponzinho.
Riscou a caixinha de fósforos.
Em Lisboa faz um tempo.
25 de agosto de 88.
Não tempo bastante
Para o esquecimento
O Chiado virou carvão
Centro histórico no chão.
Portugueses “inda contam exta hixtória”
Seu Manoel disse lembrar-se.
Da bonequinha rosa.
Que chegou num navio cargueiro.
Vindo do Rio de Janeiro.
-Meigamente “rixcou-se” na caixa,
se pôx no “Largo de Camõex”,
e “queimou-xe” junto, a todo mundo.

Isso pensa Seu Manoel.
Fofoletes têm magia Troll.
Renascem a cada atentado.
Ali fê-la renascer; um fado.

Fofoletes são culpadas.
Do incêndio no Chiado.
Do meu verbo “enduendado”.
Sadismo adocicado.
Anarquismo “Lorqueado”



.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Guerrilheira da Areia


A areia, primeira escola.
Entre baldes, primos
Pais e pás
Sempre besuntada com creme rosa
Que me fazia parecer uma índia
Uma indiana
Guerrilheira da areia

Ali dei meus primeiros passos
Como um ser independente
Vagava sozinha, olhando o mar
As vagas e carrinhos de sorvete
Só voltava quando alguém me achava
E me colocava debaixo do guarda sol amarelo
O cárcere adequado
A uma eterna fugitiva

Assim dentro da sombra torta
Fazia desenhos na areia
E mostrava
“Lindo” diziam sem ver...
Meus castelos, meus monstros
E cidades encantadas
E assim sem platéia alguma
Atuava sozinha
O que percebi ser melhor

Inventava as histórias
E a mente escrevia as palavras
Que eu não conhecia ainda
Na hora de ir embora
Destruía tudo feliz
Meus contextos eram isentos
Despossuidos de mim

Havia o dia seguinte
E com ele outras areias
Passos a diferentes rumos
Cárcere de todas manhãs
Novos desenhos e histórias
E longos mergulhos no mar
Nos braços do meu pai

Foi ali, ainda de fraldas,
Besuntada de rosa
Que conquistei minhas sardas
Meus reinos solitários
E de tudo a melhor parte;
A Arte!

Esculpida de sereia
Guerrilheira da areia!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ladrões do Passado



Hoje roubaram meu sonho
Não um sonho quimera
Mas o sonho sonhado no laço
Ritmado na noite
Lapidado em seus braços

Comecei falar dormindo
Teci no sonho uma história
Embalada em seu colo
Cerzida com fio de Morfeu
Ao som da harpa de Apolo

E quando meu sonho postei
Na caixa do inconsciente
Desviou-se de mim
Por um buraco da mente

Cavado pelo bando
De ladrões que moram em mim
Estão eles com o conto
Que fiei começo ao fim

Entraram de certo pela fenda
Que existe em minha testa
São ladrões daquela tribo
Que ali em outros tempos
Tempos esses de braveza
Me mataram a machadadas
Bem no meio da cabeça

Que será que em tantas vidas
Buscam dentro de mim?
O paradeiro do Graal
O portal do Eldorado
Ou o segredo velado
Da pedra filosofal?