sábado, 23 de junho de 2007

Portal

Você é o Portal por onde entrei
E entre tantas fantasias que encontrei
Estava em você o Sorriso do Gato de Lewis
A esperteza da Raposa de Esopo
De Zéfiro o Doce Sopro
O charme hedonista de Wilde
De Fawcett, o Eldorado.
Da erva de Carlos...O efeito.
Pequena Sereia, de Andersen...
Da princesa e a ervilha, o Leito.
De Lorca o Duende Gitano
Loucura sã de Dionísio
De Rosa, a terceira margem do rio...
De Homero, Helena de Tróia.
Das Moiras, precioso Fio
De Borges o Aleph “polividente”
De Shiva, “kundalinica” serpente...
Lucíola de Alencar
De Verne, misterioso mar...
Dreamland de Poe
Pasargada de Manoel
O Vinho do crânio de Byron
De Epicuro o Jardim
De Bosch as Delícias
Santa Teresa de Deus
Lágrimas dos olhos meus...

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Hipogrifo



As formas, não me interessam mais!
Sou aquilo que você vê dentro do caleidoscópio.
Cones ovais, losangos destroçados.
Trapézios interceptados por círculos quadrados.

"Espelhos quebrados..."

Meu coração tem a porta de um poço...
Não abra jamais!

Dentro dele adormece um hipogrifo.
Cavalo com asas de águia, o grifo e a égua.
Trégua ou entrega, sem opção.
Sou eu a Senhora da Besta.
Quando te amei o feto brotou-me no coração.

Vem que ele esta por rebentar-me!
Vem cavalgar em nossa cria!
Vem criar o que sonhamos!
Quantos planos, quantos planos...
‘Inda é cedo, ouça a madrugada...
E as fadas, e as fadas!

Venha agora ou não venha nunca mais
Meu coração tem a porta de um poço
Não abra então, não mais...
Sem você será jazigo de um sonho.
Hipogrifo algum despertará jamais.
Voar...Sonhar, viver...
Jamais...
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A COMUNIDADE POETA UM ETERNO APRENDIZ AGRADECE A TODOS OS PARTICIPANTES DO 3º CONCURSO DE POESIAS E CONCEDE O DEVIDO MÉRITO AO VENCEDOR : Hipogrifo-Heloisa Galvez

terça-feira, 19 de junho de 2007

O Passado não Passa


O passado não passa.
Lembranças criam pernas e correm atrás de mim.
Boas, más; lembranças...
Desfaço do meu presente, o passado é onisciente.
Onipotente, "oni-presente".

O presente é açoitado.
Esquecido entre fatos que vagam na mente.
Arrancado de mim, como se arranca um jasmim.
O presente não brota, é um broto natimorto.
O passado serpente vem de repente e me enterra.

Estou soterrada de recordações.
Pás de terra sobre mim são momentos que vivi.
Vermes imateriais comem o agora.
O presente não vivido, ao chorar já é passado.
As serpentes na mente, prendem o livre-arbítrio da hora.

Da canoa furada, vivo a tirar baldes de água.
Não navego, deságuo.
Não sinto o vento no rosto, sou o que aconteceu.
De tentar tirar lembranças da canoa.
Viro Sísifo, viro Tântalo, viro Prometeu.

Lembranças tantas...

sábado, 9 de junho de 2007

Fragmentos da Menina da Lancheirinha

Não tenho muitas referências desse primeiro dia é como se fosse “uma foto em negativo”, dele só tenho as emoções e algumas pequenas cenas que marcaram.
Havia um menino mais desesperado que eu, eu estava ao menos quieta, ele se contorcia e tentava chegar até a porta,
as tias o seguravam, tentavam acalmá-lo, mas ele não escutava nada, gritava que queria sua mãe, chutava cadeiras e chorava sem parar.
Sei que eu não me importava com nada à minha volta, nem estava preocupada com que outras crianças achavam
de mim, pelo fato de saberem que minha mãe estava lá. Não importava parecer medrosa, nem bonita, nem simpática, não me importava nada.
Lembro que minha mãe depois um certo tempo me acenou, como dizendo- Estou indo, logo mais volto pra te buscar. Fiz um sim com a cabeça, estava estranhamente mais calma. Descobri depois de muita observação, um mecanismo
para me confortar.
Eu não precisa “ser”, só precisava “estar’. Foi a resposta que encontrei. Isso foi a definição que dei “ao ato de ter que ir à escola”. Se já tinha tudo que queria em casa, se ali era meu mundo, ali estavam as pessoas que eu amava, os amigos de todas cores e sabores, todos os cantos mágicos onde eu brincava, se já tinha tudo isso e não sentindo falta de
mais nada, eu poderia sim, e porque não? Estar na escola sem me mostrar, sem ser, sem querer, sem desejar ou esperar nada...
Estava ali porque todas as crianças precisavam estar. Mas se eu precisava estar, estava, e estando era o bastante pra mim e também deveria para meus pais (quanto a eles me enganei). O resto eu já tinha em casa, não desejava nada além.

Então a escola passou a ser apenas quatro horas de “não ser”, apenas “estar”. E assim, mesmo sendo quatro longas horas, mesmo sendo um momento de tédio e saudade, eu não sofria mais, não sofria pelo simples fato que nada desejava ou esperava dali.

(Amor, os desejos quase sempre são os geradores principais dos grandes sofrimentos, assim nos diz a poesia, literatura, religiões, filosofia e até a ciência. Eu não tinha essa sabedoria, mas tinha o instinto e a intuição, era mais sábia, antes, que agora....Só eu sei o quanto sofri depois, por tantos desejos afoitos que precisava realizar...)

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Sonho de Vivian


Você me sonhou e eu acordei,
você me contou e eu já sabia.
-Caminhamos para o mar cheio de pétalas coloridas...-Você de azul, eu de branco

Depois desse sonho, sumiu o ex-pranto e instaurou-se o espanto.
Vi ser possível amar no acalanto, aconchegar-se no peito e dormir.
Aprendi ser possível o respeito a paixão e os dias risonhos.
Comecei a acreditar no amor, voltei a acreditar em sonhos...

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Bailarina Cozinheira


No chão rodopia ao redor do fogo
Na copa rodopia entre cacos dos pratos
No palco samba que nem rainha,
Na cozinha samba no piso oleoso
No teatro ganha aplausos em todos atos
Nas panelas, tenta lembrar, qual era o cardápio.
Na sala, mãos aos céus, ganha palmas
Na pia, tenta esconder fundos de panelas queimadas
No quarto só movimentos exatos
Na mesa, olho o banquete e prefiro ir pro quarto.
No meu corpo é a melhor bailarina do universo.
Na cozinha...Por isso fiz esse verso...

Fragmentos

Primeiro dia de aula- Um ato Fúnebre

Minha avó me acordou mais cedo aquele dia, me deu banho mais bem dado e esfregou meus cabelos com mais força, também me penteou com mais vontade, e esticou mais do que nunca minha testa quando colocou as duas Marias-chiquinhas com enfeites de bolinhas.
Depois trouxe meu uniforme cheirando a roupa muito bem passada e me vestiu cuidadosamente.
Calcinha branca novinha e a saia azul-marinho toda pregueada que descia até meus joelhos, depois a camisa branca de abotoar, com golas engomadas e um símbolo do colégio no bolso que ficava na altura do peito. Colocou as meias
brancas que tinham sulcos entre as tiras planas verticais. Esticou-as até a metade das minhas pernas, até onde era possível esticar. Depois foi até ao armário e pegou as botas pretas ortopédicas que eu precisava usar por ter um pé muito cavo e pequeno. Só as crianças com problemas ortopédicos podiam usar essas botas. As botas estavam brilhando de tão bem
escovadas (apesar de novas). Colocou uma a uma, e amarrou os cadarços (eu não sabia amarrar ainda).
Depois fez um
julgamento final, me olhou de cima a baixo e disse:
-Pronto Lolinha você está pronta!

(Eu não estava...)

Meus pais e meu irmão esperavam embaixo, não houve a famosa foto do primeiro dia que todas as crianças têm (até meu irmão). Não houve indagação alguma, peguei em silêncio o que me disseram pra levar, uma sacola azul-marinho, que para ser diferenciada de todas as outras iguais, deveria ter um bordado especial, minha sacola tinha um ursinho vermelho.
Na sacola havia um calção branco para a hora do recreio, escova e pasta de dentes e uma toalhinha também azul- marinho.

Minha avó colocou no meu ombro a lancheira rosa com um desenho de um trenzinho.
Dentro da lancheira havia uma garrafa com laranjada, um sanduíche recheado de queijo e manteiga e umas barras de chocolate, todos cuidadosamente embrulhados em papel alumínio.

“Minha avó colocou no meu ombro a lancheira rosa com todo peso do mundo.
Dentro da lancheira havia uma garrafa com um fundo de oceano, um sanduíche recheado de medo e umas barras de prisão , todos cuidadosamente embrulhados em papel de escrever adeus.”

Fui...

terça-feira, 29 de maio de 2007

Poema para Djalma

Desacelero sim Djalma,
Tanto; que hoje pois,
Nem sei quem sou
Sei que sou o que chamam
De "desassossego"
Respiro em segredo
Medo
Medo
Medo de não voar mais
Medo de tudo
Medo
Medo de ser medrosa pois nunca fui,
Desacelero sim Djalma,
Quem tem alma
Dilacera, quando morre uma quimera
E quantas morreram em mim...
Tantas quantas,
Um filme que não tem fim...

domingo, 27 de maio de 2007

fragmentos da menina da lancheirinha

A Escola
Finalmente chegamos ao terreno fundamental , para o nascimento da minha tragédia. Mas como todos os processos, ela também foi surgindo aos poucos. E o “aos poucos” tem seu prólogo aqui.
Estava chegando a hora de ir pra escola, as férias até então eternas, estavam acabando.
Eu sabia que meus pais já haviam me matriculado no colégio Dante Alighieri , o mesmo do meu irmão, eu entraria já no pré-primário, não sabia o que era isso, mas sabia que era o começo de uma grande etapa, e que ali ficaria por muitos anos.

“Na verdade o que não sabia é que uma parte minha, a melhor parte, ficaria presa ali até hoje. É por ela que estou voltando, é por ela que escrevo, é por ela que enfrentei e ainda estou enfrentando todos enfrentamentos do mundo, é por ela que choro, é por ela que sofro, só eu posso salvar o que resta dela, só o que resta dela, pode salvar o que resta de
mim....”

sexta-feira, 25 de maio de 2007

VV

Amor, amor meu...
pedacinho...
que editar, que nada...
a saudade está nessa tela...
imensa, azul como seus olhos...
imensa e azul como a terra...
amor, pedacinho, cadê?
não quero fazer poesia..
não quero rimas, nem boas palavras
só quero você...

Holandês Voador


Holandês Voador
Navio fantasma do mal
Voador, não sei quem diz
É pelos oceanos que vaga
E vagará eternamente
Tripulação fantasma
Aparece de repente
Bernard e sua gente
Atacam como serpente
O bom de se estar morto
É não ter medo de morrer
Penso ser uma pantomima
Da minha própria vida
Terra a vista jamais,
Jamais porto, jamais cais
Quebrei também as regras
Joguei dados com demônios
E trapaceei...
Da gávea só o oceano e o além
Porventura um outro navio,
Diversão da solidão
Naufragar este também...

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Epilepsia (Fragmentos da M. da Lancheirinha)


Bom aqui deu “um tilt”

Estou há 2 dias sem escrever amor, me deu um “tilt”, comecei a ler sobre epilepsia, sobre Jung, sobre Adler, Freud, entre outros...Fui conversar com um amigo psicanalista, enfim, uma epopéia atrás dessa “anomalia” que chamam epilepsia. Descobri muitas coisas, coisas sobre a “própria” e outras coisas também, as “também” foram as mais importantes.
Sobre a epilepsia descobri correlações fascinantes, como grandes personagens históricos que sofreram desse “mal” .
Dentro da medicina é somente uma patologia derivada de inúmeros problemas cerebrais, como traumatismos cranianos, choque elétrico, abuso de cocaína, etc...
Dentro da concepção cristã, era uma possessão. Um espírito maligno “entrava” na criatura e a fazia, espumar, cair no chão, gemer, falar coisas sem nexo...Enfim era sempre necessário o chamado de um padre exorcista para arrancar o demônio.

Na visão coordenada, entre a filosofia e a ciência moderna mais sensorial, a epilepsia é ainda um enigma.

Interessante como quando não se tem respostas é fácil inventar uma. E quando se têm muitas, se torna quase impossível descobrir a certa.

Bem, dentro de tudo que pude pesquisar, dentro do que minha intuição buscava, encontrei muitas vertentes, mas não me cabe resolver o enigma. Só acalmar minha alma com alguns resultados interessantes, ou perturbá-la ainda mais; o que era na verdade a intenção, mas disso eu não sabia.


Santa Teresa de Ávila (a ébria de Deus, como é chamada) era epilética, fiquei pasma!


Você sabe das visões que ela teve, no meio de seus “delírios” como a de um anjo transpassando seu coração com uma flecha, mostrando nesse momento que deveria sair de sua omissão e começar sua missão!

Foi a partir de então que realmente incorporou a mulher “santa”, fez seus votos de pobreza e correu Espanha afora, erguendo mosteiros em nome da nova ordem que criara,(Carmelitas Descalças) seguindo os desígnios de Jesus, sim, das longas conversas que ambos tiveram, segundo ela... Amor, escrever “segundo ela” já mostra a mim, minha indagação quanto a este mito....
A pergunta é; existem seres tão sensíveis quanto ela, que de tal iluminação, encontram seu verdadeiro caminho, sua “Grande Obra’ através de ataques que nessa divagação nada mais são que outro nome para big-bang, metanóia, iluminação, individuação?
Ou será que a dor advinda desses ataques, os deixa realmente loucos, e como tábua de salvação encontram (são encontrados) por uma força intensa do inconsciente, que os foca em algo de muito grande, transformando assim essa loucura em algo realmente edificante?

Ora, se acima não escrevi a mesma coisa de maneiras diferentes!

-Perdão Santa Teresa, se já te amava, agora então....

Ordinário


As coisas ordinárias sempre me pareceram ordinárias, chamo de ordinário, as coisas comuns, como uma gaveta arrumada, uma mulher só bonita, um homem machista, TV ligada durante o dia, fazer o mesmo todo dia, rir de uma piada besta pra agradar o locutor, adorar uma tragédia, usar roupas da moda, trabalhar o dia todo e não ficar rico nunca. Ah...Mas são tantas coisas ordinárias nessa vida que muitas vezes me pergunto o que estou fazendo por aqui. Fazer supermercado e olhar os precinhos de cada produto me causa ânsia., não porque eu possa comprar tudo, porque não posso, mas causa. Almoçar no mesmo horário e temperar uma salada me desespera, ter que arrumar a cama, pegar ônibus, por pijama. E guarda-chuva então. Não há nada que me irrite mais que pessoas que têm o costume de usar guarda-chuva. Tomar chuva é tão bom, não é ordinário. Ordinário é ler “o segredo” e achar que agora a vida vai mudar. Ordinário é reclamar de todo mundo, quando a gente que tem que mudar. Ordinário é sonhar e não buscar, é amar e não roubar um beijo, é viver na laje da vida e nunca saltar. Ordinário é não chegar no mar, por nojo da areia, é não acreditar em saci nem em sereia, é rir da desgraça alheia. Ordinário é seguir o rebanho, ficar em fila de banco, nunca ter dado barraco na rua, ordinário é fazer deposito na reza, é palitar os dentes na mesa, ordinário é não saber amar como se deve, nunca cometer loucuras obscenas, ordinário é ser sempre platéia. Ordinário é ficar velho sem ter histórias pra contar, não meia dúzia, mas centenas, porque a vida só não é ordinária, quando a gente fala o que pensa, e isso causa tanta fúria por aí, que ah, como vale a pena...

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Beijo

Me chamaram pra um lugar,
Que tem gosto de beijo na boca
Ali não hei de entrar,não hei de estar
Se não for pra ficar louca.

Me chamaram prum lugar
Que lembra vinho e risada
Lembra aquilo que fui
Quando estava fora da estrada

E agora não sei se vou,
Esse lugar é tudo que eu era,
E agora já não sou,
O problema é que o gosto do beijo ficou...

Então tô assim, assim
Pensando em me dar asa,
E esquecer que a boca beija,
Ou deixar a boca em casa.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Fofoletes Assassinas



Eu colecionava fofoletes
vinham em caixas como fósforos
um dia, esfreguei aquele gorrinho
com o pomponzinho
do lado da linda caixinha
fofolete pegou fogo
eu joguei numa valeta,
o esgoto ignorou

Rio de Janeiro incendiou
fofoletes, quem diria
pequenas assassinas
com pompons tão delicados
mataram todos cariocas
fizeram dos milhos, pipocas
da minha infância; paçoca
fofoletes são culpadas
desta vida adulterada
desse peixe sanguinário
desse marte em sagitário...

quarta-feira, 16 de maio de 2007

A Lenda do Amor do Mar



Quando uma jovem dormia na beira de um rio,
Acordou com o som de um galope
Um galope de um ciclope que passou por ela e nem viu
Esmagou sua cabeça na beira do rio.
O caldo de seu cérebro se misturou com as águas azuis,
Um único neurônio se salvou e como um pequeno girino nadou.
Chegou no oceano já como uma serpente azul,
Netuno ao ouvir a notícia ordenou que a trouxessem.
Nenhum tritão foi capaz de tal proeza, a serpente era invencível.
E ao perceber-se perseguida, gritou aos sete mares:
-Não temam, sou invencível porém não lhes quero mal.
Netuno não contente bramiu:
-E quem pariu um monstro assim tão virtuoso?
-A Pata de um ciclope foi meu pai, minha mãe uma mulher que sonhava, eu sou o sonho,
que sobreviveu.
-Com que sonhava sua falecida mãe?
-Sonhava que encontrava um grande amor entre as águas do oceano...

Assim, a serpente azul, nadou por todo mar, e por onde passou, espalhou o amor que sua mãe sonhou...



terça-feira, 15 de maio de 2007

Fragmentos Da Menina da Lancheirinha


Óleo (A Noite)

Óleo é uma cidade muito pequena do interior de São Paulo, ali, perto de Avaré.

Fiquei muito feliz quando vi que o Óleo, estava no mapa do Estado. Eu sempre amei e ainda amo viajar pelos mapas.
Ali nasceu minha mãe, foi em uma fazenda das redondezas que minha avó foi criada, foi no Óleo que depois de Casados meus avós foram morar. Ali nasceram todos os filhos.

“ Avó usa grampo.
Avô usa chapéu.
Avós voltam pro grampo.
O feminino é sempre plural.”

A casa do Óleo, ficava na rua principal, ao lado da antiga “venda” da minha vó, nessa época apenas um enorme galpão fechado com prateleiras velhas e alguns objetos esquecidos que eu gostava de descobrir.


Eu não entrava ali sempre, era escuro e as paredes que falavam comigo choravam muitas lembranças, eram poucos momentos com cheiro de mofo e esquecimento..
A venda tinha uma pequena porta “nessa época sempre trancada” que dava exatamente na sala da casa que posso
chamar de “coração”.

(Amor, aquela casa foi e ainda é , embora tenha sido vendida, embora nem saiba se ainda está de pé o coração da minha
infância.)

Não tinha quintal na frente, só uma enorme varanda com cadeiras de madeira onde minha vó passava horas conversando com suas velhas e inseparáveis amigas, Dona Luzia e Dona Maria, que sempre choravam quando íamos embora.


Ainda vejo a cena de dentro do carro partindo. Olhava pela “janela de dar tchau” e via as duas velhinhas em pé acenando e chorando. Enquanto iam diminuindo, sentia a pele quente da minha vó, ao meu lado, mas não olhava pra ela, não queria ver suas lágrimas.

A varanda tanto levava para a sala enorme quanto ao jardim lateral onde minha vó cuidava de suas roseiras, havia muitas rosas, outras flores também, mas só lembro das rosas, minha vó cuidava mais das rosas, e eu só cuidei de lembrar delas..

Fragmentos da Menininha da Lancheirinha


O Zé Catraca



Foi também no quintal que presenciei outra cena terrível.
Dessa vez eu estava só, estava no quintal de cima, um quintal acima do pomar, que ficava do outro lado do “jardim das rosas”

Nessa época Amor, na casinha branca do pomar, morava um casal de caseiros, eram velhos, mal os via, depois percebi que não eram de fato caseiros, moravam ali numa casa minúscula por caridade da minha vó.

Esse casal tinha um filho conhecido como “Zé Catraca” . Eu tinha muito medo dele; tinha um rosto cavernoso e parecia um personagem de algum filme de David Linch, aqueles do mal.

Sua pele era de um tom cinza-esverdeado, tinha um cabelo sempre oleoso e cheirava mal,

sei que andava pelas ruas e que não trabalhava, quando não estava bêbado, também estava, acho que nunca ouvi sua voz, só via seus vultos sempre escuros vagando pelo pomar.

Na casinha minúscula que os velhinhos moravam não tinha lugar para ele, então minha vó o acomodou numa espécie de porão, que na verdade estava abaixo da casa e só tinha uma entrada pelo quintal.

Era uma espécie de caverna, tinha uma entrada, mas não tinha porta. Nesse lugar, pensava que além daquele homem, também moravam outros monstros, eu olhava para o buraco e sempre tentava me desviar, mas claro que eu ansiava o momento de entrar e ver o que havia de fato por lá.

A sintonia, que agora entendo é que a cena terrível se deu no mesmo dia que entrei pela primeira vez naquela caverna assombrada.
Resolvi entrar e levei comigo a sensação de "euforia que o medo traz” estava em pânico e apaixonada pelo instante.

Sorrateira e sozinha, cuidei para que o homem cinza-esverdeado não estivesse por perto e fui...
Era escuro, não tão grande, olhei tudo em um segundo, vi um colchão listrado, um “trabissero” sem fronha, umas garrafas vazias (de pinga certamente) e roupas jogadas por todo lugar, um instante de divagação passou por mim...
”Como alguém podia viver assim?” “A mãe não cuidava dele?” “Porquê será que ele era assim?”

Saí sem ver monstro algum. Os monstros sei agora que estavam dentro de mim, aquele buraco era apenas um botão que acionava essa sensação. Mas naquela época minha fantasia não me deixava questionar a existência dessas e outras criaturas

Foi logo depois que aconteceu...

Entrando ali e profanando o habitat do monstro real , achei que de alguma forma o chamei.
E assim, no quintal de cima, onde estava perdida em meus questionamentos , foi que ele apareceu, em carne e osso, o “Zé Catraca”.

Apareceu por trás de mim, pensei que fosse me pegar, mas não. De repente olhei pra ele e vi que estava tremendo, tremendo mais e mais, até que caiu no chão, onde continuou e se contorcer, emitia sons guturais, seus olhos giravam sem destino, eu fiquei congelada, acompanhando a cena, quadro a quadro:

Foi o monstro se revelando finalmente, por um minuto pensei que ele estava se transformando, logo me engoliria, esse pensamento me tirou do papel de espectadora e me levou ao de vítima, como vítima, fugi desenfreada, pulei o portão e subi a rua até chegar à casa da prima da minha mãe, onde sabia que todos estavam.

Cheguei e contei, devo ter contado assim:
-Mãe!- o Zé do porão ta lá caído no quintal, ta se revirando, vem depressa ver!
Foram, mas já o tinham socorrido, me explicaram que teve um ataque epilético, eu não sabia o que era isso, mas enfim, não era sobrenatural.


Fiquei de mal com a fantasia. Mas só por alguns dias...

sábado, 12 de maio de 2007

Uma Vida Pequena


Existem coisas especiais, dessas que causam ao mesmo tempo medo e fascínio. Desde menina me atenho muito a essas coisas, seres e sensações. São os presentes da fantasia postos aqui, neste mundo que é o que nos parece real.
Entre essas coisas que chamo especiais, havia os seres protagonistas, ainda há, não nego; são os anões.
Eu não podia ver um anão na rua que cutucava minha mãe e apontava com aflição e euforia. Ela bronqueava. “Não é certo fazer cena, diante de pessoas assim”. Mas era inevitável, e fiz, durante toda minha infância.
Com 19 anos tomei orgulhosa, cargo do meu primeiro emprego. Uma grande editora; eu era desenhista de uma revista infantil, o personagem principal era um palhacinho. O palhacinho criava vida no setor de promoções. Havia uma fantasia perfeita, quem a vestia era um anão.
Não me senti à vontade com isso, o anão não gostava de mim, isso nunca foi falado, mas eu sabia, aos poucos percebi que não gostava de ninguém.
Aparecia de vez em quando em nossa sala sem fantasia e por mais que eu tentasse, não conseguia desviar meu olhar do pequenino, usava roupas de menino, sapatinhos ortopédicos, e suspensórios permanentes, nunca o vi de outro jeito.
Eu sabia que ele estava perfeitamente ciente do que eu sentia, pois sua metade fantástica outorgava ao pequeno ser, além da forma, o conteúdo, e este eu sabia....Estava a par de tudo.
Um dia cheguei atrasada, o elevador demorou, subi correndo as escadas,e ali entre um andar e outro, vi caído o anão.
Nem sei o que senti, ficaria aflita se fosse uma pessoa como eu, mas sendo o anão fiquei estática sem ação. Não sei o que foi, houve ali uma dessas sensações mágicas que relatei antes, que misturam medo e euforia, sei que o anão caído com seus suspensórios encardidos, pediu meu colo e o peguei, não era tão leve como pensava, desci com ele pelas escadas vazias. Cheguei à recepção e gritei pra telefonista chamar uma ambulância.
Chegou quando um tumulto já estava à porta do prédio. Levaram-no às pressas. Soubemos depois de algumas horas que tivera um enfarto, não morrera por um triz, fui eleita heroína. Não sei se me orgulhei.
O anão jamais voltou, estava cansado e fraco pra vestir a fantasia pesada. Em seu lugar veio um menino, simplesmente um menino. Ele andava pela sala, com roupinhas da moda se sentindo o tal porque era um semi-ator. Algumas vezes vinha em minha mesa e dizia que eu desenhava mal. Eu o ignorava, e quando aparecia desviava meu olhar.
Um dia veio a notícia; o anãozinho morreu. Parece que a esposa ligou e avisou o local do velório.
Da empresa fomos uns três, eu tive que ir pra ver o anão. Sei não ser direito pensar isso, mas ver um anão morto era pra minha mente torta, aventura sem igual.
Lá entre dez pessoas, fui muito bem recebida por uma linda mulher. Uma mulher como outra qualquer. Era a esposa do anão e em cada uma das mãos segurava diminutas mãozinhas de um casal de anõezinhos. Nesse dia imaginei muitas coisas; imaginar os dois na cama foi inevitável.
Antes de me despedir quis pegar as crianças no colo, dois anõezinhos em botão, mal sabiam todos dissabores que lhes reservava a vida. A vida de ser anão.

Isso aconteceu há 20 anos, hoje Pedro e Clara são grandes amigos, desde a morte de seu pai não consegui me desgrudar deles. Me chamam de heroína, e outro dia voltei pra casa com uma sensação “daquelas”.
Pedro, 16 anos mais novo e setenta centímetros mais baixo, me deu uma cantada.
Fiquei um pouco decepcionada, esperava isso de Clara....


quinta-feira, 10 de maio de 2007


(Fragmentos da "Menina da Lancheirinha") O Terrorista

Lembro de minha vó e mamãe exclamando “Meu Deus”!
-As balas passaram quase na cabeça das crianças!
Claro que comecei a perguntar, afinal agora já havia uma história a ser explorada:
-O que é terrorista?
-Em que posição ele caiu?
-Tem sangue na calçada?
-Porquê fizeram isso?
As respostas vieram de maneira bastante didática. Me falaram que terroristas eram homens que lutavam contra o governo.

(Amor, não se esqueça que estávamos em 69, 70, época do regime militar, e como nosso mais alto mandante, o General Emilio Garrastazu Médice. Seu governo foi considerado o mais repressivo do período, conhecido como “ anos de chumbo “. A repressão à luta armada crescia e uma severa política de censura havia sido colocada em ação. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, e outras formas de expressão artística foram censuradas. Muitos, políticos,
músicos, artistas e escritores foram investigados, presos, mortos, torturados ou exilados. Foi nessa época que criou-se o Doi-codi (Destacamento de Operações e Informações ao Centro de Operações de Defesa Interna)



Na época e da maneira como foi contada me pareceu assim:
-Nada, menininha- o mocinho matou o bandido.
Eu não sabia dessas coisas de ditadura, nem grupos “extremistas” que se formaram para combater esse regime destruidor de almas e suas expressões “não convencionais



Quando soube de tudo, desde o golpe de 64, um ano antes no meu nascimento até o AI-5, já no regime Geisel em 78, e junto a isso, tudo que esses anos representaram para os “não comuns”, me senti meio enganada.

Como meu pai, carregando tantos genes “anarquistas” não fez nada contra tantas crueldades? Como pôde achar normal um terrorista morrer, como pôde chamar um homem com um ideal de terrorista?


Não é cabido julgar, esse foi um padrão dele, foi o instinto de proteção por tudo que lhe foi contado, e pelas seqüelas destes danos que a infância deixa.
Penso em meu avô, e como ele talvez quisesse compensar todo sofrimento, não só dele mesmo mas de toda família deixada para traz, cuidando como um militar do seu novo rebanho que nascia num Novo Mundo.
Hoje entendo ainda mais a grandeza do meu pai, que mesmo tendo tantas células “esquerdistas” colocou-as adormecidas para, assim como meu avô também nos poupar. E poupou.
Só entendi o que realmente aconteceu nos bastidores do planalto, no momento da minha infância, muito tempo depois.
E não foi através da escola também “ditatoresca’ que cria as histórias assim como convém seu sustento. Mas em filmes, livros, músicas, fatos e relatos de pessoas que conheci.


E foi através dessas histórias e seus personagens, banidos do País. banidos de si mesmo, ao cortarem caules verdes que brotavam de suas almas, que entendi que a história sempre se repete, até o dia afinal, que possa ocorrer uma explosão tal qual houve em minha própria vida, mas isso não há de ser nem é possível; a explosão real de todos no mesmo segundo.
O que podemos fazer é acelerar esse processo para ajudar quem vem depois. Pois o mundo é ao mesmo tempo um palco atroz e fascinante.

(E penso que é exatamente graças a este cenário engendrado tão torto, por genial artimanha de algum poder invisível, que cada ser humano carrega um imenso potencial de se perceber, e se enxergar , porque a partir desse instante tudo que você quer Amor, é o crescimento constante de cada um de seus semelhantes.)

E a vida com seus sofrimentos, misérias, doenças, guerras e preconceitos de todas as qualidades, é afinal um caderno escancarado com todos os ensinamentos. Alguns lêem primeiro, outros demoram um pouco mais, alguns são “analfabetos”, outros eternos penitentes, mas se cada um que já o leu, estender a mão para outro alguém, haverá por certo um processo mais acelerado. E quem sabe um dia, um mundo mais sensato.




quarta-feira, 9 de maio de 2007

Insônia



Longo dia de insônia
O pescoço tenta sustentar a cabeça
A cabeça pende, nada além do vazio
Um branco absoluto, e esse medo, esse frio

Se na noite insone não dormimos
No dia insone não acordamos
É um dia catatônico, sem luz
Sombras alheias nos conduz

Longo dia sem despertar
Mente sem abecedário
Corpo ausente, sem lugar
Surdez de peixe no aquário

(Vivian G.)

Hemorragia


Cortei profundo um pedaço da minha pele.
O sangue aprisionado em mim, fez esse pedido.
Antes expulsei do corpo qualquer fibrina; plaquetas, leucócitos e hamáceas.
Perigosos armistícios coaguladores poderiam ser engendrados agora.
O sangue tinha que vir..
Quando senti o sangue escorrendo, chamei todos meus sentidos.

Cada um explicou como via esse movimento.

A Visão muito objetiva, disse racionalmente:

“A visão que tive no primeiro instante do esparramar do sangue é que ele era de um vermelho brilhante. A visão que tive momentos depois foi de uma outra cor escura misturando-se ao vermelho.Meu olhar final, constatou a total ausência do vermelho,
já não era mais sangue enfim. Era só um liquido pesado, cor de nanquim.

O Olfato foi o segundo:

“O que senti no primeiro momento foi um aroma de sangue natural, um aroma forte e vivo.
No momento seguinte senti cheiro de água estagnada, um cheiro dividido entre o acre e o doce. Senti por fim, um cheiro de algo putrificado, um cheiro de incineração, de água parada, o aroma do sangue se esvaiu, ficou somente o cheiro podre de um rio.

O Paladar veio em seguida:

“Quando o sangue começou a jorrar, coloquei meu palato ali, senti um gosto seleto, de sangue fresco e correto.No instante da segunda degustação, senti um gosto de fel, aos poucos se misturando. Quando já muito enjoado, tentei provar mais sereno, o que senti foi um gosto de veneno”

A Audição mais sensível, expôs sua tese baseada em sons invisíveis só inteligíveis por ela:

“À primeira explosão do sangue, ouvi gritos aliviados, percebi a velocidade, porque ouvi a agitação. O segunda murmúrio que ouvi foi de imenso pesar, ouvi choros e lamentos conformados.O que ouvi ao final eram berros e sons de desespero, de despejo, de fúnebre cortejo.

Não entendi tanta erudição, esqueci o “tato” e chamei meu melhor sentido; a Intuição.

Ela explicou assim:

“O corte eu mesma fiz, ele era o passaporte...”.
O sangue que veio primeiro foi seu sangue saudável, porém já corrompido pelas células negras, implantadas em você por “algo desconhecido”
As células estavam pelo corpo todo, quando as obriguei a entrar na corrente sangüínea, se sentiram ultrajadas, mas foram sem muita luta, eram aquelas mais fracas.
As que estavam em sua mente e em seu coração, estavam em total apego, gritavam desesperadas , tive que arranca-las à faca, fugiram todas decepadas por suas veias,
e estão agora, do lado de lá.”

A intuição foi até a geladeira e me trouxe um suco de laranja.
Beba isso todos os dias, um novo sangue está brotando.

Olhei para meu corte: coagulando...


domingo, 6 de maio de 2007

Sou Água (poesias)


Sou Água

E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.

Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.

Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.

Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.

Porque sou Água.

domingo, 29 de abril de 2007


O Sonho Australiano (contos)



A mãe estava com as malas prontas pra embarcar pra Espanha, tudo premeditadamente
organizado; apartamento, colégio pro filho, papéis e vistos de trabalho, tudo arrumado. O pacote do sonho hispânico estava finalmente pronto, depois de anos ela conseguiu fazer com que a empresa que prestava serviços esporádicos, finalmente a contratasse, e melhor, seria gerente geral de produtos e lojas, o salário? Astronômico. Ela sabia; eles precisavam dela.
Havia um pequeno problema:
- Mãe! - Eu odeio a Espanha, eu não vou!-Quero ir pra Austrália, quero ter um canguru!
-Filho, mamãe falou há tempos, você tem 13 anos e não tem escolha vai comigo e pronto, vai amar a Espanha!- Já falamos muito sobre isso!
-Detesto a Espanha, detesto essas coisas velhas, prédios velhos, na Espanha todo mundo é velho mãe!
-Você mal conhece, foi uma vez, e era um menininho.
-Mãe não vou!-Vou ficar na casa do Vovô.
-O vovô também é velho...
A mãe não lhe deu ouvidos, ele iria com ela e pronto. Sabia que no fim, ela sempre cedia.
No dia do embarque eram duas almas na contra mão, a mãe exultante, o filho funesto.
No avião um pouco de paz, o menino sentado na janela via nuvens “de cangurus” por todos os lados, via aborígines com bumerangues nas mãos, via o mar, menininhas lindas surfando nas praias de Queenland......Num solavanco do avião mudou o foco, sua mente inverteu-se para a realidade e viu arenas com touros sangrentos, estátuas de reis usurpadores, catedrais assustadoras, ruínas de castelos árabes, e velhos, muitos velhos. Quis chorar, mas esforçou-se e tentou dormir.
Quando o avião aterrisou no aeroporto de Barajas em Madrid. O menino sentiu-se descendo para uma masmorra secular com velhos pendurados por correntes, velhos comendo ratos, velhos loucos andando em círculos. Já estava ali, não havia jeito.
O táxi os levou para um pequeno apartamento do bairro central “Puerta Del Sol” onde ficava o escritório que a mãe iria trabalhar. Despachou-os correndo, não podia parar ali, a Calle Carmen onde ficava o apartamento era uma imensa calçada só para pedrestes, levaram as malas imensas por 200 ms, o menino lembrou que antes de irem pras masmorras os velhos que não eram tão velhos e faziam serviços pesados.
Chegaram, tocaram a campanhia do pequeno prédio e um senhor de uns 80 anos abriu.
-Si?
A mãe explicou que era a nova inquilina do 31, mostrou os papéis e o velhinho os fez entrar.
-Tendrán que subir por las escaleras, el acendedor está roto....Disse, dando as costas.
-Roto mãe? –que quer dizer roto?
-Quebrado filho.
-Três andares de escada com toda essa bagagem? Nem pensou em pedir ajuda pro velho, qualquer frasqueira o faria esfacelar-se....
Subiram. Depois de 3 viagens, chegaram mortos, a Mãe por um momento pensou nas praias da “Gold Coast” e nas modernidades australianas.
O apartamento era bom, tinha uma varanda para a rua de onde podiam ver a estátua do urso alcançando a maçã; símbolo de Madrid.
-Olha o urso filho!
-Quem liga pra ursos? - quero ver um canguru, um coala, um demônio da Tasmânia!-quero ver praia, pessoas bonitas, aborígines, aqui tudo é velho mãe!
-Amanhã te levo pra passear no bairro moderno, vai ver que nem tudo é velho aqui.
-E olha essa tevê! –nem canal a cabo tem!
A mãe queria estourar, mas controlou-se, imaginava mesmo que os primeiros dias seriam difíceis, mas tinha esperança que com o tempo ele iria se acostumar...
E o tempo passou. O menino começou na escola e detestou:
-Mãe essa crianças da Espanha são chatas, só falam em futebol, e as meninas pensam que já são velhas, usam batom e laquê no cabelo!-mãe estou num pesadelo!
-Filho estou trabalhando!- vai tomar uma orchata e traz uma pra mim.
-Detesto orchata queria uma água de coco.
-Filho agüenta um ano, nas férias vamos pra Austrália. Prometo!
-Um ano mãe! –até lá vou estar com rugas!- aqui todo mundo tem rugas!
Nada adiantava, a mãe nos fins de semana o levava pras cidades das redondezas, Ávila, Segóvia, Toledo...
-Agora entendo esses caras do eta!- jogavam bombas pra fazer um país mais moderno!
-Não aprende nada nas aulas de história?
-Sim, sei tudo sobre a dinastia Habsburgo,a invasão dos mouros, a descoberta das Américas, onde idolatram Pizarro e não falam nada que roubou o ouro dos incas!
-Ai Meu Deus!
O tempo passou mais um pouco. Federico, um menino da escola, o chamou pra fazer parte do time de futebol, afinal brasileiro é brasileiro.
Ele foi meio contrariado mas foi, em pouco tempo era o capitão do time, todos o chamavam de Ronaldiño. Tornou-se popular.
Pilar uma vizinha linda, embora tímida, um dia criou coragem e perguntou de onde ele era.
-Brasil.
-Verdad ? A mí me gustaría conocer Brasil.
E conversa vai conversa vem começaram uma amizade, Pilar mostrou-lhe os pequenos lugares mágicos de Madrid, nada como uma guia local. “Pensou ele”.
Levou Pilar e a Mãe pra ver a final do campeonato na escola. Fez 3 gols. Ganharam.
Deram duas voltas pelo campo segurando “Ronaldiño” pelos braços!
A mãe ficou encantada
Pilar mais apaixonada.
A escola ganhou o campeonato. Tornou-se um ídolo por lá.
Chegaram as férias, hora de ir pra Austrália.
Não negou, mas foi meio contrariado. E Pilar? E os treinos? E a viagem de férias com os amigos pra esquiar na Itália?
No avião ficou mudo de novo, consolou-se com as nuvens rosas do fim de tarde. Viu Pilar sorrindo pra ele, viu a bola e viu o gol. Viu o Caminho de Santiago, mesmo sem nunca ter visto, ele e pilar combinaram ir pra lá quando tivessem 16 anos.
Num solavanco sua mente desviou o rumo, viu as menininhas de Queenland, nenhuma deveria ter os olhos de Pilar, viu os aborígines com bumerangues na mão. Já preferia as espadas de Toledo. Viu os cangurus...Alegrou-se. Tinha um plano, faria a mãe comprar um canguru e voltariam pra Espanha. Dormiu feliz....

fim

quarta-feira, 25 de abril de 2007


A Dança dos Orixás (poesias)



Ela tem a força de Ogum
As cores de Oxumaré
Valentia herdou de Oxóssi
De Nanã, Sabedoria

Yemanjá lhe deu "Ser Mãe" com a garra de Xangô
Oxum, lhe deu ser "Mulher"
Como um verbo a ser conjugado

Yansã que dela é a Guia
Deu o raio e a teimosia que irradia, irradia...

Ela pode até pode pensar
Que Oxalá a esqueceu
Por isso às vezes chora
por isso, às vezes tem medo

Ela ainda não sabe
Que Oxalá, sempre demora
e só sai de seu Congá
Pra neste mundo aparecer
Quando sabe que chegou a hora
Daquilo que tem que ser...

segunda-feira, 23 de abril de 2007


Desabafo (poesias)

Olha que não ta fácil...
Eu to ficando louca, ou to virando Budha
Tudo está em movimento, tuda fala;
O tapete do banheiro, o isqueiro, só falta entender a língua do porteiro
Achar o Graal e a pedra filosofal
E isso é tarefa mais fácil afinal.
A banca de revistas, virou a melhor diversão,
E o chamado do livro, uma bula papal.
As perguntas do meu filho
Viraram as minhas respostas,
Vejo filmes e falo as frases antes de mim.
Não existe dia e noite, nem começo, muito menos fim
Do tempo já não tenho noção
Matei Kronos e não tenho sono.
O anarquismo me possuiu
Me casei com uma ninfa yansã
Que tem muito de “yan”, e nada de sã
Estamos juntas há três chicos
E três Tpms iradas
Ambas recebemos os cruéis no mesmo dia.
E sangro tanto que perece que matei um bode
Assisti irmão urso 2, e depois efeito borboleta
Dormi entre deus e o capeta
Acordei, só depois que não dormi.
Vejo poesia em tudo, menos futebol e big brother
E como penso que já vejo o cume
Até música do Benito de Paula
Ando baixando no emule
Transformei o carnaval
Em visões da aurora boreal
Shiva, esse vejo todo dia,
Assim como Afrodite
Que.....?
Nem espero que ninguém acredite
É só um desabafo
Afinal sou uma Hereita,
A preferida de Safo...

(Fragmentos da Menina da Lancheirinha) Papai


Meu pai era e ainda é na minha visão, um homem muito bonito, dele herdei esses traços mouro-hispânicos típicos da Andaluzia. Alto , moreno, lábios grossos e um sorriso cativante. Só não veio pra mim sua cor levemente mais escura, que a do resto de nós. Mas estava em mim o poder de ficar negra ao sol, só eu e meu pai, minha mãe e meu irmão viravam pimentões.

Lembro como o achava o meu, o mais bonito dos pais da minha infância, era um homem que inspirava força, com um olhar sempre confiante.

Porém dele também herdei os cabelos que com meus sete anos começaram a ficar enrolados, e talvez tenha sido por causa dos seus olhos negros, que os meus nasceram com uma cor confusa. Hoje dizem que é mel, nunca gostei de ter olhos cor de mel, queria ter olhos verdes, verdes como o de toda família, tão verdes quanto os do meu irmão.

É preciso, Amor meu, explicar um pouco de suas origens...
Meu pai é filho de espanhóis, que vieram fugidos de Málaga, na Andaluzia , na época da ditatura Franco, com o tempo descobri que eram anarquistas.

Quando soube dessa história, lembrei-me de Lorca fuzilado por Franco, lembrei de todos artistas mortos em qualquer regime, onde criaturas têm que viver de acordo com a vida experimentada por uma outra mente. Nesses casos, mentes doentias obcecadas pela ordem, poder e outros sentimentos gerados pela incompetência de lidar com seu melhor, ( hoje sei que cultivar nosso melhor é a parte mais difícil), optam por lidar com o mais fácil e tornam-se
mitos de atrocidade pelo mundo...
Quando penso em meus avós fugindo de sua Terra, de suas terras penso em todos esses artistas amputados de suas expressões, penso em Buñuel, Neruda, Dali, Reinaldo Arenas, penso nos que puderam se esquivar ou muitas vezes dissimular seus dons para sobreviver, e penso nos que por serem tão intensos, lutaram até o fim sem sair do lugar, não traíram suas mentes, nem suas convicções. Foram até o fim...Mas penso em todos e por muito tempo e até hoje não nego, exalto quem sabe morrer por um ideal....

Acho que essa herança genética de rebeldia que herdei, liquidificou-se em outros anarquismos gerados por mim mesma, como o “Maravilhoso Anarquismo do Amor”. Tudo em mim era advindo do amor.
Amava as histórias de amores viscerais como em “Abelardo e Heloisa” onde Heloisa na hora de sua morte, “morte de amor”...Preferiu quebrar a cruz ao beijar o símbolo que destruiu sua possibilidade de estar com Abelardo ...Também morto por amor....
Por isso também sempre me fascinei pelas histórias de poetas e escritores e compositores que não agüentaram tanto amor em vida, e buscaram-na na morte, seja suicídio planejado, seja matar-se aos poucos através de substâncias que acalmam ou exacerbam sua pulsante criação...Seja descuidando-se de si mesmo, e entregando-se mais e mais para essa “vida morte” que em suas almas latejantes eram um lugar único. O templo idílico pra onde olhavam quando
produziam sua arte, ato supremo de expressão. Por isso, os mais intensos morreram tão jovens...

E foram tantos, Sylvia Plath no bico do gás, Alfonsina de encontro ao mar, Florbela, Ana Christina Cezar, Hemingway, Wilde, Cobain, Joplin, Augusto dos anjos, Álvares, e tantos..tantos...
Eu conhecia essas histórias desde menina, papai comprou um dia, uma enciclopédia, eram uns 20 livros, cada um com seu tema .Chamava-se “O mundo da Criança”, acho que como fui a única leitora compulsiva de todos eles, descobri muito cedo a história de grandes compositores clássicos.
Como Mozart, Wagner, Tchaikovsky , e suas vidas sempre difíceis, descobri a dificuldade dos poetas, escritores, li histórias de amor que mesmo na forma de contos de fadas ainda eram muito tristes...

(O mundo da criança Amor é muito intenso, se você o descobre nos livros sem arautos sensatos, isso pode trazer mais tarde, dor. Meu pai me deu o melhor presente que tive “O mundo da Criança” daquelas imagens e figuras foi feita uma parte de mim. Depois da tragédia, inverti um pouco as palavras e as imagens. Não... Inverti completamente)

Paradigma (poesias)


Sou um paradigma.

Uma equação sem resultado.

Pra quem me vê,

apenas uma miragem.

Sou um Coração de Romeu,

no peito de um Cavalo Selvagem

sexta-feira, 20 de abril de 2007


(Fragmentos da Menina da Lancheirinha) Mamãe

Minha mãe e sua aparência física é quase uma incógnita para mim. Quando criança ao olhar pra ela, percebia que não era um mulher linda, não tão bonita, quanto achava meu pai, nem um simples traço que lembrasse a beleza nas fotos antigas de minha avó.

Minha mãe, entre os quatro filho, acho que foi a única que herdou traços do meu avô,como a boca fina demais, os olhos tristes, embora verdes, como quase toda família. Também projetava um nariz agressivo, pequeno e muito fino, sua altura também não ajudava muito, um metro e cinqüenta.
Digo que sua aparência era uma incógnita porque algumas vezes olhava pra ela e via a mulher mais linda do mundo, via uma Elisabeth Taylor jovem, e muito mais bonita.
Um dia quando seus primeiros cabelos brancos apareceram , cheguei em casa e encontrei uma mãe loira. Nunca mais então tive aquela visão de musa. Algo havia saído do seu lugar.


Minha mãe como eu disse não era muito carinhosa, mas eu queria seus carinhos e quando queria muito sabia como conseguir, não era sempre, mas às vezes eu queria tanto que inventava uma dor, um queda, ou qualquer história pra me vitimizar, quando ela não entendia, quando minhas palavras não bastavam pra alcançar meu objetivo, eu corria chorar atrás da poltrona vermelha da sala de estar, aí sim, ela vinha:
-Que foi amor?
E me dava finalmente seu colo. "Aprendi que atrás da poltrona vermelha é que estavam escondidos os abraços da minha mãe."


Eu lembro de momentos eternos, digo eternos porque quando você os têm, no momento que sente, você pensa “Este Momento Será Eterno” , claro que não pensa exatamente assim, mas sente....Existiu um momento precioso demais em minha infância, que veio tão desregrado que tenho que parar pra pensar.


Foi o momento que descobri o quanto amava minha mãe e quanto carinho e cuidado tinha por ela, foi assim, ela estava dentro do “Armarinho-que-ficava-debaixo-da-escada” eu estava passando e a vi, fiquei espiando o que fazia.

Ela procurava uma lâmpada; lá era uma espécie de depósito, então achou a lâmpada olhou pra ela e a chacoalhou....
Hoje sei que se chacoalha uma lâmpada pra ver se está quebrada, mas naquele dia, não sabia. Não sei por que está visão me marcou tanto. Se fosse possível expressar o que senti numa frase diria assim “Nossa, eu amo imensamente essa pequena mulher que chacoalha a lâmpada”


É fácil metaforizar isso de várias maneiras, livros, idéias, lâmpadas....Mas o que senti naquele dia não foi pensado, foi só uma explosão espontânea de amor profundo por um ser...




Quem é Ela


E alguém perguntou:
-Quem é ela?
E ninguém soube responder
Porque ela é indefinível
É um desenho de menino
Ânfora perdida da Atlântida
Cheiro de aurora boreal
Sereia abissal

E alguém insistiu:
-Quem é ela?
E ninguém ousou definir
Porque ela é um ser entre-mundos
O coração de um arco-íris
Luz de boitatá
Espinho da flor de lótus
Consciência dos fótons

E alguém mentiu:
-Eu sei quem é ela!
E todos quiseram saber
Porque ela é inexistente
Vive no sol poente
Caminha na minha mente
Miragem de um louco
De tudo que não há, um pouco