Amor, amor meu...
pedacinho...
que editar, que nada...
a saudade está nessa tela...
imensa, azul como seus olhos...
imensa e azul como a terra...
amor, pedacinho, cadê?
não quero fazer poesia..
não quero rimas, nem boas palavras
só quero você...
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Holandês Voador

Holandês Voador
Navio fantasma do mal
Voador, não sei quem diz
É pelos oceanos que vaga
E vagará eternamente
Tripulação fantasma
Aparece de repente
Bernard e sua gente
Atacam como serpente
O bom de se estar morto
É não ter medo de morrer
Penso ser uma pantomima
Da minha própria vida
Terra a vista jamais,
Jamais porto, jamais cais
Quebrei também as regras
Joguei dados com demônios
E trapaceei...
Da gávea só o oceano e o além
Porventura um outro navio,
Diversão da solidão
Naufragar este também...
Navio fantasma do mal
Voador, não sei quem diz
É pelos oceanos que vaga
E vagará eternamente
Tripulação fantasma
Aparece de repente
Bernard e sua gente
Atacam como serpente
O bom de se estar morto
É não ter medo de morrer
Penso ser uma pantomima
Da minha própria vida
Terra a vista jamais,
Jamais porto, jamais cais
Quebrei também as regras
Joguei dados com demônios
E trapaceei...
Da gávea só o oceano e o além
Porventura um outro navio,
Diversão da solidão
Naufragar este também...
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Epilepsia (Fragmentos da M. da Lancheirinha)

Bom aqui deu “um tilt”
Estou há 2 dias sem escrever amor, me deu um “tilt”, comecei a ler sobre epilepsia, sobre Jung, sobre Adler, Freud, entre outros...Fui conversar com um amigo psicanalista, enfim, uma epopéia atrás dessa “anomalia” que chamam epilepsia. Descobri muitas coisas, coisas sobre a “própria” e outras coisas também, as “também” foram as mais importantes.
Sobre a epilepsia descobri correlações fascinantes, como grandes personagens históricos que sofreram desse “mal” .
Dentro da medicina é somente uma patologia derivada de inúmeros problemas cerebrais, como traumatismos cranianos, choque elétrico, abuso de cocaína, etc...
Dentro da concepção cristã, era uma possessão. Um espírito maligno “entrava” na criatura e a fazia, espumar, cair no chão, gemer, falar coisas sem nexo...Enfim era sempre necessário o chamado de um padre exorcista para arrancar o demônio.
Sobre a epilepsia descobri correlações fascinantes, como grandes personagens históricos que sofreram desse “mal” .
Dentro da medicina é somente uma patologia derivada de inúmeros problemas cerebrais, como traumatismos cranianos, choque elétrico, abuso de cocaína, etc...
Dentro da concepção cristã, era uma possessão. Um espírito maligno “entrava” na criatura e a fazia, espumar, cair no chão, gemer, falar coisas sem nexo...Enfim era sempre necessário o chamado de um padre exorcista para arrancar o demônio.
Na visão coordenada, entre a filosofia e a ciência moderna mais sensorial, a epilepsia é ainda um enigma.
Interessante como quando não se tem respostas é fácil inventar uma. E quando se têm muitas, se torna quase impossível descobrir a certa.
Bem, dentro de tudo que pude pesquisar, dentro do que minha intuição buscava, encontrei muitas vertentes, mas não me cabe resolver o enigma. Só acalmar minha alma com alguns resultados interessantes, ou perturbá-la ainda mais; o que era na verdade a intenção, mas disso eu não sabia.
Santa Teresa de Ávila (a ébria de Deus, como é chamada) era epilética, fiquei pasma!
Você sabe das visões que ela teve, no meio de seus “delírios” como a de um anjo transpassando seu coração com uma flecha, mostrando nesse momento que deveria sair de sua omissão e começar sua missão!
Foi a partir de então que realmente incorporou a mulher “santa”, fez seus votos de pobreza e correu Espanha afora, erguendo mosteiros em nome da nova ordem que criara,(Carmelitas Descalças) seguindo os desígnios de Jesus, sim, das longas conversas que ambos tiveram, segundo ela... Amor, escrever “segundo ela” já mostra a mim, minha indagação quanto a este mito....
A pergunta é; existem seres tão sensíveis quanto ela, que de tal iluminação, encontram seu verdadeiro caminho, sua “Grande Obra’ através de ataques que nessa divagação nada mais são que outro nome para big-bang, metanóia, iluminação, individuação?
Ou será que a dor advinda desses ataques, os deixa realmente loucos, e como tábua de salvação encontram (são encontrados) por uma força intensa do inconsciente, que os foca em algo de muito grande, transformando assim essa loucura em algo realmente edificante?
Foi a partir de então que realmente incorporou a mulher “santa”, fez seus votos de pobreza e correu Espanha afora, erguendo mosteiros em nome da nova ordem que criara,(Carmelitas Descalças) seguindo os desígnios de Jesus, sim, das longas conversas que ambos tiveram, segundo ela... Amor, escrever “segundo ela” já mostra a mim, minha indagação quanto a este mito....
A pergunta é; existem seres tão sensíveis quanto ela, que de tal iluminação, encontram seu verdadeiro caminho, sua “Grande Obra’ através de ataques que nessa divagação nada mais são que outro nome para big-bang, metanóia, iluminação, individuação?
Ou será que a dor advinda desses ataques, os deixa realmente loucos, e como tábua de salvação encontram (são encontrados) por uma força intensa do inconsciente, que os foca em algo de muito grande, transformando assim essa loucura em algo realmente edificante?
Ora, se acima não escrevi a mesma coisa de maneiras diferentes!
-Perdão Santa Teresa, se já te amava, agora então....
Ordinário

As coisas ordinárias sempre me pareceram ordinárias, chamo de ordinário, as coisas comuns, como uma gaveta arrumada, uma mulher só bonita, um homem machista, TV ligada durante o dia, fazer o mesmo todo dia, rir de uma piada besta pra agradar o locutor, adorar uma tragédia, usar roupas da moda, trabalhar o dia todo e não ficar rico nunca. Ah...Mas são tantas coisas ordinárias nessa vida que muitas vezes me pergunto o que estou fazendo por aqui. Fazer supermercado e olhar os precinhos de cada produto me causa ânsia., não porque eu possa comprar tudo, porque não posso, mas causa. Almoçar no mesmo horário e temperar uma salada me desespera, ter que arrumar a cama, pegar ônibus, por pijama. E guarda-chuva então. Não há nada que me irrite mais que pessoas que têm o costume de usar guarda-chuva. Tomar chuva é tão bom, não é ordinário. Ordinário é ler “o segredo” e achar que agora a vida vai mudar. Ordinário é reclamar de todo mundo, quando a gente que tem que mudar. Ordinário é sonhar e não buscar, é amar e não roubar um beijo, é viver na laje da vida e nunca saltar. Ordinário é não chegar no mar, por nojo da areia, é não acreditar em saci nem em sereia, é rir da desgraça alheia. Ordinário é seguir o rebanho, ficar em fila de banco, nunca ter dado barraco na rua, ordinário é fazer deposito na reza, é palitar os dentes na mesa, ordinário é não saber amar como se deve, nunca cometer loucuras obscenas, ordinário é ser sempre platéia. Ordinário é ficar velho sem ter histórias pra contar, não meia dúzia, mas centenas, porque a vida só não é ordinária, quando a gente fala o que pensa, e isso causa tanta fúria por aí, que ah, como vale a pena...
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Beijo
Me chamaram pra um lugar,
Que tem gosto de beijo na boca
Ali não hei de entrar,não hei de estar
Se não for pra ficar louca.
Me chamaram prum lugar
Que lembra vinho e risada
Lembra aquilo que fui
Quando estava fora da estrada
E agora não sei se vou,
Esse lugar é tudo que eu era,
E agora já não sou,
O problema é que o gosto do beijo ficou...
Então tô assim, assim
Pensando em me dar asa,
E esquecer que a boca beija,
Ou deixar a boca em casa.
Que tem gosto de beijo na boca
Ali não hei de entrar,não hei de estar
Se não for pra ficar louca.
Me chamaram prum lugar
Que lembra vinho e risada
Lembra aquilo que fui
Quando estava fora da estrada
E agora não sei se vou,
Esse lugar é tudo que eu era,
E agora já não sou,
O problema é que o gosto do beijo ficou...
Então tô assim, assim
Pensando em me dar asa,
E esquecer que a boca beija,
Ou deixar a boca em casa.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Fofoletes Assassinas

Eu colecionava fofoletes
vinham em caixas como fósforos
um dia, esfreguei aquele gorrinho
com o pomponzinho
do lado da linda caixinha
fofolete pegou fogo
eu joguei numa valeta,
o esgoto ignorou
Rio de Janeiro incendiou
fofoletes, quem diria
pequenas assassinas
com pompons tão delicados
mataram todos cariocas
fizeram dos milhos, pipocas
da minha infância; paçoca
fofoletes são culpadas
desta vida adulterada
desse peixe sanguinário
desse marte em sagitário...
pequenas assassinas
com pompons tão delicados
mataram todos cariocas
fizeram dos milhos, pipocas
da minha infância; paçoca
fofoletes são culpadas
desta vida adulterada
desse peixe sanguinário
desse marte em sagitário...
quarta-feira, 16 de maio de 2007
A Lenda do Amor do Mar

Quando uma jovem dormia na beira de um rio,
Acordou com o som de um galope
Um galope de um ciclope que passou por ela e nem viu
Esmagou sua cabeça na beira do rio.
O caldo de seu cérebro se misturou com as águas azuis,
Um único neurônio se salvou e como um pequeno girino nadou.
Chegou no oceano já como uma serpente azul,
Netuno ao ouvir a notícia ordenou que a trouxessem.
Nenhum tritão foi capaz de tal proeza, a serpente era invencível.
E ao perceber-se perseguida, gritou aos sete mares:
-Não temam, sou invencível porém não lhes quero mal.
Netuno não contente bramiu:
-E quem pariu um monstro assim tão virtuoso?
-A Pata de um ciclope foi meu pai, minha mãe uma mulher que sonhava, eu sou o sonho,
que sobreviveu.
-Com que sonhava sua falecida mãe?
-Sonhava que encontrava um grande amor entre as águas do oceano...
Assim, a serpente azul, nadou por todo mar, e por onde passou, espalhou o amor que sua mãe sonhou...
terça-feira, 15 de maio de 2007
Fragmentos Da Menina da Lancheirinha

Óleo (A Noite)
Óleo é uma cidade muito pequena do interior de São Paulo, ali, perto de Avaré.
Óleo é uma cidade muito pequena do interior de São Paulo, ali, perto de Avaré.
Fiquei muito feliz quando vi que o Óleo, estava no mapa do Estado. Eu sempre amei e ainda amo viajar pelos mapas.
Ali nasceu minha mãe, foi em uma fazenda das redondezas que minha avó foi criada, foi no Óleo que depois de Casados meus avós foram morar. Ali nasceram todos os filhos.
“ Avó usa grampo.
Avô usa chapéu.
Avós voltam pro grampo.
O feminino é sempre plural.”
A casa do Óleo, ficava na rua principal, ao lado da antiga “venda” da minha vó, nessa época apenas um enorme galpão fechado com prateleiras velhas e alguns objetos esquecidos que eu gostava de descobrir.
Ali nasceu minha mãe, foi em uma fazenda das redondezas que minha avó foi criada, foi no Óleo que depois de Casados meus avós foram morar. Ali nasceram todos os filhos.
“ Avó usa grampo.
Avô usa chapéu.
Avós voltam pro grampo.
O feminino é sempre plural.”
A casa do Óleo, ficava na rua principal, ao lado da antiga “venda” da minha vó, nessa época apenas um enorme galpão fechado com prateleiras velhas e alguns objetos esquecidos que eu gostava de descobrir.
Eu não entrava ali sempre, era escuro e as paredes que falavam comigo choravam muitas lembranças, eram poucos momentos com cheiro de mofo e esquecimento..
A venda tinha uma pequena porta “nessa época sempre trancada” que dava exatamente na sala da casa que posso
chamar de “coração”.
(Amor, aquela casa foi e ainda é , embora tenha sido vendida, embora nem saiba se ainda está de pé o coração da minha
infância.)
Não tinha quintal na frente, só uma enorme varanda com cadeiras de madeira onde minha vó passava horas conversando com suas velhas e inseparáveis amigas, Dona Luzia e Dona Maria, que sempre choravam quando íamos embora.
A venda tinha uma pequena porta “nessa época sempre trancada” que dava exatamente na sala da casa que posso
chamar de “coração”.
(Amor, aquela casa foi e ainda é , embora tenha sido vendida, embora nem saiba se ainda está de pé o coração da minha
infância.)
Não tinha quintal na frente, só uma enorme varanda com cadeiras de madeira onde minha vó passava horas conversando com suas velhas e inseparáveis amigas, Dona Luzia e Dona Maria, que sempre choravam quando íamos embora.
Ainda vejo a cena de dentro do carro partindo. Olhava pela “janela de dar tchau” e via as duas velhinhas em pé acenando e chorando. Enquanto iam diminuindo, sentia a pele quente da minha vó, ao meu lado, mas não olhava pra ela, não queria ver suas lágrimas.
A varanda tanto levava para a sala enorme quanto ao jardim lateral onde minha vó cuidava de suas roseiras, havia muitas rosas, outras flores também, mas só lembro das rosas, minha vó cuidava mais das rosas, e eu só cuidei de lembrar delas..
Fragmentos da Menininha da Lancheirinha

O Zé Catraca
Foi também no quintal que presenciei outra cena terrível.
Dessa vez eu estava só, estava no quintal de cima, um quintal acima do pomar, que ficava do outro lado do “jardim das rosas”
Dessa vez eu estava só, estava no quintal de cima, um quintal acima do pomar, que ficava do outro lado do “jardim das rosas”
Nessa época Amor, na casinha branca do pomar, morava um casal de caseiros, eram velhos, mal os via, depois percebi que não eram de fato caseiros, moravam ali numa casa minúscula por caridade da minha vó.
Esse casal tinha um filho conhecido como “Zé Catraca” . Eu tinha muito medo dele; tinha um rosto cavernoso e parecia um personagem de algum filme de David Linch, aqueles do mal.
Sua pele era de um tom cinza-esverdeado, tinha um cabelo sempre oleoso e cheirava mal,
sei que andava pelas ruas e que não trabalhava, quando não estava bêbado, também estava, acho que nunca ouvi sua voz, só via seus vultos sempre escuros vagando pelo pomar.
Na casinha minúscula que os velhinhos moravam não tinha lugar para ele, então minha vó o acomodou numa espécie de porão, que na verdade estava abaixo da casa e só tinha uma entrada pelo quintal.
Era uma espécie de caverna, tinha uma entrada, mas não tinha porta. Nesse lugar, pensava que além daquele homem, também moravam outros monstros, eu olhava para o buraco e sempre tentava me desviar, mas claro que eu ansiava o momento de entrar e ver o que havia de fato por lá.
A sintonia, que agora entendo é que a cena terrível se deu no mesmo dia que entrei pela primeira vez naquela caverna assombrada.
Resolvi entrar e levei comigo a sensação de "euforia que o medo traz” estava em pânico e apaixonada pelo instante.
Sorrateira e sozinha, cuidei para que o homem cinza-esverdeado não estivesse por perto e fui...
Era escuro, não tão grande, olhei tudo em um segundo, vi um colchão listrado, um “trabissero” sem fronha, umas garrafas vazias (de pinga certamente) e roupas jogadas por todo lugar, um instante de divagação passou por mim...
”Como alguém podia viver assim?” “A mãe não cuidava dele?” “Porquê será que ele era assim?”
Saí sem ver monstro algum. Os monstros sei agora que estavam dentro de mim, aquele buraco era apenas um botão que acionava essa sensação. Mas naquela época minha fantasia não me deixava questionar a existência dessas e outras criaturas
Foi logo depois que aconteceu...
Entrando ali e profanando o habitat do monstro real , achei que de alguma forma o chamei.
E assim, no quintal de cima, onde estava perdida em meus questionamentos , foi que ele apareceu, em carne e osso, o “Zé Catraca”.
Apareceu por trás de mim, pensei que fosse me pegar, mas não. De repente olhei pra ele e vi que estava tremendo, tremendo mais e mais, até que caiu no chão, onde continuou e se contorcer, emitia sons guturais, seus olhos giravam sem destino, eu fiquei congelada, acompanhando a cena, quadro a quadro:
Foi o monstro se revelando finalmente, por um minuto pensei que ele estava se transformando, logo me engoliria, esse pensamento me tirou do papel de espectadora e me levou ao de vítima, como vítima, fugi desenfreada, pulei o portão e subi a rua até chegar à casa da prima da minha mãe, onde sabia que todos estavam.
Cheguei e contei, devo ter contado assim:
-Mãe!- o Zé do porão ta lá caído no quintal, ta se revirando, vem depressa ver!
Foram, mas já o tinham socorrido, me explicaram que teve um ataque epilético, eu não sabia o que era isso, mas enfim, não era sobrenatural.
Fiquei de mal com a fantasia. Mas só por alguns dias...
Apareceu por trás de mim, pensei que fosse me pegar, mas não. De repente olhei pra ele e vi que estava tremendo, tremendo mais e mais, até que caiu no chão, onde continuou e se contorcer, emitia sons guturais, seus olhos giravam sem destino, eu fiquei congelada, acompanhando a cena, quadro a quadro:
Foi o monstro se revelando finalmente, por um minuto pensei que ele estava se transformando, logo me engoliria, esse pensamento me tirou do papel de espectadora e me levou ao de vítima, como vítima, fugi desenfreada, pulei o portão e subi a rua até chegar à casa da prima da minha mãe, onde sabia que todos estavam.
Cheguei e contei, devo ter contado assim:
-Mãe!- o Zé do porão ta lá caído no quintal, ta se revirando, vem depressa ver!
Foram, mas já o tinham socorrido, me explicaram que teve um ataque epilético, eu não sabia o que era isso, mas enfim, não era sobrenatural.
Fiquei de mal com a fantasia. Mas só por alguns dias...
sábado, 12 de maio de 2007
Uma Vida Pequena

Existem coisas especiais, dessas que causam ao mesmo tempo medo e fascínio. Desde menina me atenho muito a essas coisas, seres e sensações. São os presentes da fantasia postos aqui, neste mundo que é o que nos parece real.
Entre essas coisas que chamo especiais, havia os seres protagonistas, ainda há, não nego; são os anões.
Eu não podia ver um anão na rua que cutucava minha mãe e apontava com aflição e euforia. Ela bronqueava. “Não é certo fazer cena, diante de pessoas assim”. Mas era inevitável, e fiz, durante toda minha infância.
Com 19 anos tomei orgulhosa, cargo do meu primeiro emprego. Uma grande editora; eu era desenhista de uma revista infantil, o personagem principal era um palhacinho. O palhacinho criava vida no setor de promoções. Havia uma fantasia perfeita, quem a vestia era um anão.
Não me senti à vontade com isso, o anão não gostava de mim, isso nunca foi falado, mas eu sabia, aos poucos percebi que não gostava de ninguém.
Aparecia de vez em quando em nossa sala sem fantasia e por mais que eu tentasse, não conseguia desviar meu olhar do pequenino, usava roupas de menino, sapatinhos ortopédicos, e suspensórios permanentes, nunca o vi de outro jeito.
Eu sabia que ele estava perfeitamente ciente do que eu sentia, pois sua metade fantástica outorgava ao pequeno ser, além da forma, o conteúdo, e este eu sabia....Estava a par de tudo.
Um dia cheguei atrasada, o elevador demorou, subi correndo as escadas,e ali entre um andar e outro, vi caído o anão.
Nem sei o que senti, ficaria aflita se fosse uma pessoa como eu, mas sendo o anão fiquei estática sem ação. Não sei o que foi, houve ali uma dessas sensações mágicas que relatei antes, que misturam medo e euforia, sei que o anão caído com seus suspensórios encardidos, pediu meu colo e o peguei, não era tão leve como pensava, desci com ele pelas escadas vazias. Cheguei à recepção e gritei pra telefonista chamar uma ambulância.
Chegou quando um tumulto já estava à porta do prédio. Levaram-no às pressas. Soubemos depois de algumas horas que tivera um enfarto, não morrera por um triz, fui eleita heroína. Não sei se me orgulhei.
O anão jamais voltou, estava cansado e fraco pra vestir a fantasia pesada. Em seu lugar veio um menino, simplesmente um menino. Ele andava pela sala, com roupinhas da moda se sentindo o tal porque era um semi-ator. Algumas vezes vinha em minha mesa e dizia que eu desenhava mal. Eu o ignorava, e quando aparecia desviava meu olhar.
Um dia veio a notícia; o anãozinho morreu. Parece que a esposa ligou e avisou o local do velório.
Da empresa fomos uns três, eu tive que ir pra ver o anão. Sei não ser direito pensar isso, mas ver um anão morto era pra minha mente torta, aventura sem igual.
Lá entre dez pessoas, fui muito bem recebida por uma linda mulher. Uma mulher como outra qualquer. Era a esposa do anão e em cada uma das mãos segurava diminutas mãozinhas de um casal de anõezinhos. Nesse dia imaginei muitas coisas; imaginar os dois na cama foi inevitável.
Antes de me despedir quis pegar as crianças no colo, dois anõezinhos em botão, mal sabiam todos dissabores que lhes reservava a vida. A vida de ser anão.
Isso aconteceu há 20 anos, hoje Pedro e Clara são grandes amigos, desde a morte de seu pai não consegui me desgrudar deles. Me chamam de heroína, e outro dia voltei pra casa com uma sensação “daquelas”.
Pedro, 16 anos mais novo e setenta centímetros mais baixo, me deu uma cantada.
Fiquei um pouco decepcionada, esperava isso de Clara....
Entre essas coisas que chamo especiais, havia os seres protagonistas, ainda há, não nego; são os anões.
Eu não podia ver um anão na rua que cutucava minha mãe e apontava com aflição e euforia. Ela bronqueava. “Não é certo fazer cena, diante de pessoas assim”. Mas era inevitável, e fiz, durante toda minha infância.
Com 19 anos tomei orgulhosa, cargo do meu primeiro emprego. Uma grande editora; eu era desenhista de uma revista infantil, o personagem principal era um palhacinho. O palhacinho criava vida no setor de promoções. Havia uma fantasia perfeita, quem a vestia era um anão.
Não me senti à vontade com isso, o anão não gostava de mim, isso nunca foi falado, mas eu sabia, aos poucos percebi que não gostava de ninguém.
Aparecia de vez em quando em nossa sala sem fantasia e por mais que eu tentasse, não conseguia desviar meu olhar do pequenino, usava roupas de menino, sapatinhos ortopédicos, e suspensórios permanentes, nunca o vi de outro jeito.
Eu sabia que ele estava perfeitamente ciente do que eu sentia, pois sua metade fantástica outorgava ao pequeno ser, além da forma, o conteúdo, e este eu sabia....Estava a par de tudo.
Um dia cheguei atrasada, o elevador demorou, subi correndo as escadas,e ali entre um andar e outro, vi caído o anão.
Nem sei o que senti, ficaria aflita se fosse uma pessoa como eu, mas sendo o anão fiquei estática sem ação. Não sei o que foi, houve ali uma dessas sensações mágicas que relatei antes, que misturam medo e euforia, sei que o anão caído com seus suspensórios encardidos, pediu meu colo e o peguei, não era tão leve como pensava, desci com ele pelas escadas vazias. Cheguei à recepção e gritei pra telefonista chamar uma ambulância.
Chegou quando um tumulto já estava à porta do prédio. Levaram-no às pressas. Soubemos depois de algumas horas que tivera um enfarto, não morrera por um triz, fui eleita heroína. Não sei se me orgulhei.
O anão jamais voltou, estava cansado e fraco pra vestir a fantasia pesada. Em seu lugar veio um menino, simplesmente um menino. Ele andava pela sala, com roupinhas da moda se sentindo o tal porque era um semi-ator. Algumas vezes vinha em minha mesa e dizia que eu desenhava mal. Eu o ignorava, e quando aparecia desviava meu olhar.
Um dia veio a notícia; o anãozinho morreu. Parece que a esposa ligou e avisou o local do velório.
Da empresa fomos uns três, eu tive que ir pra ver o anão. Sei não ser direito pensar isso, mas ver um anão morto era pra minha mente torta, aventura sem igual.
Lá entre dez pessoas, fui muito bem recebida por uma linda mulher. Uma mulher como outra qualquer. Era a esposa do anão e em cada uma das mãos segurava diminutas mãozinhas de um casal de anõezinhos. Nesse dia imaginei muitas coisas; imaginar os dois na cama foi inevitável.
Antes de me despedir quis pegar as crianças no colo, dois anõezinhos em botão, mal sabiam todos dissabores que lhes reservava a vida. A vida de ser anão.
Isso aconteceu há 20 anos, hoje Pedro e Clara são grandes amigos, desde a morte de seu pai não consegui me desgrudar deles. Me chamam de heroína, e outro dia voltei pra casa com uma sensação “daquelas”.
Pedro, 16 anos mais novo e setenta centímetros mais baixo, me deu uma cantada.
Fiquei um pouco decepcionada, esperava isso de Clara....
quinta-feira, 10 de maio de 2007

(Fragmentos da "Menina da Lancheirinha") O Terrorista
Lembro de minha vó e mamãe exclamando “Meu Deus”!
-As balas passaram quase na cabeça das crianças!
Claro que comecei a perguntar, afinal agora já havia uma história a ser explorada:
-O que é terrorista?
-Em que posição ele caiu?
-Tem sangue na calçada?
-Porquê fizeram isso?
As respostas vieram de maneira bastante didática. Me falaram que terroristas eram homens que lutavam contra o governo.
(Amor, não se esqueça que estávamos em 69, 70, época do regime militar, e como nosso mais alto mandante, o General Emilio Garrastazu Médice. Seu governo foi considerado o mais repressivo do período, conhecido como “ anos de chumbo “. A repressão à luta armada crescia e uma severa política de censura havia sido colocada em ação. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, e outras formas de expressão artística foram censuradas. Muitos, políticos,
músicos, artistas e escritores foram investigados, presos, mortos, torturados ou exilados. Foi nessa época que criou-se o Doi-codi (Destacamento de Operações e Informações ao Centro de Operações de Defesa Interna)
-As balas passaram quase na cabeça das crianças!
Claro que comecei a perguntar, afinal agora já havia uma história a ser explorada:
-O que é terrorista?
-Em que posição ele caiu?
-Tem sangue na calçada?
-Porquê fizeram isso?
As respostas vieram de maneira bastante didática. Me falaram que terroristas eram homens que lutavam contra o governo.
(Amor, não se esqueça que estávamos em 69, 70, época do regime militar, e como nosso mais alto mandante, o General Emilio Garrastazu Médice. Seu governo foi considerado o mais repressivo do período, conhecido como “ anos de chumbo “. A repressão à luta armada crescia e uma severa política de censura havia sido colocada em ação. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, e outras formas de expressão artística foram censuradas. Muitos, políticos,
músicos, artistas e escritores foram investigados, presos, mortos, torturados ou exilados. Foi nessa época que criou-se o Doi-codi (Destacamento de Operações e Informações ao Centro de Operações de Defesa Interna)
Na época e da maneira como foi contada me pareceu assim:
-Nada, menininha- o mocinho matou o bandido.
Eu não sabia dessas coisas de ditadura, nem grupos “extremistas” que se formaram para combater esse regime destruidor de almas e suas expressões “não convencionais
Quando soube de tudo, desde o golpe de 64, um ano antes no meu nascimento até o AI-5, já no regime Geisel em 78, e junto a isso, tudo que esses anos representaram para os “não comuns”, me senti meio enganada.
Como meu pai, carregando tantos genes “anarquistas” não fez nada contra tantas crueldades? Como pôde achar normal um terrorista morrer, como pôde chamar um homem com um ideal de terrorista?
Não é cabido julgar, esse foi um padrão dele, foi o instinto de proteção por tudo que lhe foi contado, e pelas seqüelas destes danos que a infância deixa.
Penso em meu avô, e como ele talvez quisesse compensar todo sofrimento, não só dele mesmo mas de toda família deixada para traz, cuidando como um militar do seu novo rebanho que nascia num Novo Mundo.
Hoje entendo ainda mais a grandeza do meu pai, que mesmo tendo tantas células “esquerdistas” colocou-as adormecidas para, assim como meu avô também nos poupar. E poupou.
Só entendi o que realmente aconteceu nos bastidores do planalto, no momento da minha infância, muito tempo depois.
E não foi através da escola também “ditatoresca’ que cria as histórias assim como convém seu sustento. Mas em filmes, livros, músicas, fatos e relatos de pessoas que conheci.
E foi através dessas histórias e seus personagens, banidos do País. banidos de si mesmo, ao cortarem caules verdes que brotavam de suas almas, que entendi que a história sempre se repete, até o dia afinal, que possa ocorrer uma explosão tal qual houve em minha própria vida, mas isso não há de ser nem é possível; a explosão real de todos no mesmo segundo.
O que podemos fazer é acelerar esse processo para ajudar quem vem depois. Pois o mundo é ao mesmo tempo um palco atroz e fascinante.
(E penso que é exatamente graças a este cenário engendrado tão torto, por genial artimanha de algum poder invisível, que cada ser humano carrega um imenso potencial de se perceber, e se enxergar , porque a partir desse instante tudo que você quer Amor, é o crescimento constante de cada um de seus semelhantes.)
E a vida com seus sofrimentos, misérias, doenças, guerras e preconceitos de todas as qualidades, é afinal um caderno escancarado com todos os ensinamentos. Alguns lêem primeiro, outros demoram um pouco mais, alguns são “analfabetos”, outros eternos penitentes, mas se cada um que já o leu, estender a mão para outro alguém, haverá por certo um processo mais acelerado. E quem sabe um dia, um mundo mais sensato.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Insônia

Longo dia de insônia
O pescoço tenta sustentar a cabeça
A cabeça pende, nada além do vazio
Um branco absoluto, e esse medo, esse frio
Se na noite insone não dormimos
No dia insone não acordamos
É um dia catatônico, sem luz
Sombras alheias nos conduz
Longo dia sem despertar
Mente sem abecedário
Corpo ausente, sem lugarSurdez de peixe no aquário
(Vivian G.)
Hemorragia

Cortei profundo um pedaço da minha pele.
O sangue aprisionado em mim, fez esse pedido.
Antes expulsei do corpo qualquer fibrina; plaquetas, leucócitos e hamáceas.
Perigosos armistícios coaguladores poderiam ser engendrados agora.
O sangue tinha que vir..
Quando senti o sangue escorrendo, chamei todos meus sentidos.
Cada um explicou como via esse movimento.
A Visão muito objetiva, disse racionalmente:
“A visão que tive no primeiro instante do esparramar do sangue é que ele era de um vermelho brilhante. A visão que tive momentos depois foi de uma outra cor escura misturando-se ao vermelho.Meu olhar final, constatou a total ausência do vermelho,
já não era mais sangue enfim. Era só um liquido pesado, cor de nanquim.
O Olfato foi o segundo:
“O que senti no primeiro momento foi um aroma de sangue natural, um aroma forte e vivo.
No momento seguinte senti cheiro de água estagnada, um cheiro dividido entre o acre e o doce. Senti por fim, um cheiro de algo putrificado, um cheiro de incineração, de água parada, o aroma do sangue se esvaiu, ficou somente o cheiro podre de um rio.
O Paladar veio em seguida:
“Quando o sangue começou a jorrar, coloquei meu palato ali, senti um gosto seleto, de sangue fresco e correto.No instante da segunda degustação, senti um gosto de fel, aos poucos se misturando. Quando já muito enjoado, tentei provar mais sereno, o que senti foi um gosto de veneno”
A Audição mais sensível, expôs sua tese baseada em sons invisíveis só inteligíveis por ela:
“À primeira explosão do sangue, ouvi gritos aliviados, percebi a velocidade, porque ouvi a agitação. O segunda murmúrio que ouvi foi de imenso pesar, ouvi choros e lamentos conformados.O que ouvi ao final eram berros e sons de desespero, de despejo, de fúnebre cortejo.
Não entendi tanta erudição, esqueci o “tato” e chamei meu melhor sentido; a Intuição.
Ela explicou assim:
“O corte eu mesma fiz, ele era o passaporte...”.
O sangue que veio primeiro foi seu sangue saudável, porém já corrompido pelas células negras, implantadas em você por “algo desconhecido”
As células estavam pelo corpo todo, quando as obriguei a entrar na corrente sangüínea, se sentiram ultrajadas, mas foram sem muita luta, eram aquelas mais fracas.
As que estavam em sua mente e em seu coração, estavam em total apego, gritavam desesperadas , tive que arranca-las à faca, fugiram todas decepadas por suas veias,
e estão agora, do lado de lá.”
A intuição foi até a geladeira e me trouxe um suco de laranja.
Beba isso todos os dias, um novo sangue está brotando.
Olhei para meu corte: coagulando...
O sangue aprisionado em mim, fez esse pedido.
Antes expulsei do corpo qualquer fibrina; plaquetas, leucócitos e hamáceas.
Perigosos armistícios coaguladores poderiam ser engendrados agora.
O sangue tinha que vir..
Quando senti o sangue escorrendo, chamei todos meus sentidos.
Cada um explicou como via esse movimento.
A Visão muito objetiva, disse racionalmente:
“A visão que tive no primeiro instante do esparramar do sangue é que ele era de um vermelho brilhante. A visão que tive momentos depois foi de uma outra cor escura misturando-se ao vermelho.Meu olhar final, constatou a total ausência do vermelho,
já não era mais sangue enfim. Era só um liquido pesado, cor de nanquim.
O Olfato foi o segundo:
“O que senti no primeiro momento foi um aroma de sangue natural, um aroma forte e vivo.
No momento seguinte senti cheiro de água estagnada, um cheiro dividido entre o acre e o doce. Senti por fim, um cheiro de algo putrificado, um cheiro de incineração, de água parada, o aroma do sangue se esvaiu, ficou somente o cheiro podre de um rio.
O Paladar veio em seguida:
“Quando o sangue começou a jorrar, coloquei meu palato ali, senti um gosto seleto, de sangue fresco e correto.No instante da segunda degustação, senti um gosto de fel, aos poucos se misturando. Quando já muito enjoado, tentei provar mais sereno, o que senti foi um gosto de veneno”
A Audição mais sensível, expôs sua tese baseada em sons invisíveis só inteligíveis por ela:
“À primeira explosão do sangue, ouvi gritos aliviados, percebi a velocidade, porque ouvi a agitação. O segunda murmúrio que ouvi foi de imenso pesar, ouvi choros e lamentos conformados.O que ouvi ao final eram berros e sons de desespero, de despejo, de fúnebre cortejo.
Não entendi tanta erudição, esqueci o “tato” e chamei meu melhor sentido; a Intuição.
Ela explicou assim:
“O corte eu mesma fiz, ele era o passaporte...”.
O sangue que veio primeiro foi seu sangue saudável, porém já corrompido pelas células negras, implantadas em você por “algo desconhecido”
As células estavam pelo corpo todo, quando as obriguei a entrar na corrente sangüínea, se sentiram ultrajadas, mas foram sem muita luta, eram aquelas mais fracas.
As que estavam em sua mente e em seu coração, estavam em total apego, gritavam desesperadas , tive que arranca-las à faca, fugiram todas decepadas por suas veias,
e estão agora, do lado de lá.”
A intuição foi até a geladeira e me trouxe um suco de laranja.
Beba isso todos os dias, um novo sangue está brotando.
Olhei para meu corte: coagulando...
domingo, 6 de maio de 2007
Sou Água (poesias)
Sou Água
E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.
Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.
Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.
Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.
Porque sou Água.
E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.
Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.
Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.
Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.
Porque sou Água.
domingo, 29 de abril de 2007

O Sonho Australiano (contos)
A mãe estava com as malas prontas pra embarcar pra Espanha, tudo premeditadamente
organizado; apartamento, colégio pro filho, papéis e vistos de trabalho, tudo arrumado. O pacote do sonho hispânico estava finalmente pronto, depois de anos ela conseguiu fazer com que a empresa que prestava serviços esporádicos, finalmente a contratasse, e melhor, seria gerente geral de produtos e lojas, o salário? Astronômico. Ela sabia; eles precisavam dela.
Havia um pequeno problema:
- Mãe! - Eu odeio a Espanha, eu não vou!-Quero ir pra Austrália, quero ter um canguru!
-Filho, mamãe falou há tempos, você tem 13 anos e não tem escolha vai comigo e pronto, vai amar a Espanha!- Já falamos muito sobre isso!
-Detesto a Espanha, detesto essas coisas velhas, prédios velhos, na Espanha todo mundo é velho mãe!
-Você mal conhece, foi uma vez, e era um menininho.
-Mãe não vou!-Vou ficar na casa do Vovô.
-O vovô também é velho...
A mãe não lhe deu ouvidos, ele iria com ela e pronto. Sabia que no fim, ela sempre cedia.
No dia do embarque eram duas almas na contra mão, a mãe exultante, o filho funesto.
No avião um pouco de paz, o menino sentado na janela via nuvens “de cangurus” por todos os lados, via aborígines com bumerangues nas mãos, via o mar, menininhas lindas surfando nas praias de Queenland......Num solavanco do avião mudou o foco, sua mente inverteu-se para a realidade e viu arenas com touros sangrentos, estátuas de reis usurpadores, catedrais assustadoras, ruínas de castelos árabes, e velhos, muitos velhos. Quis chorar, mas esforçou-se e tentou dormir.
Quando o avião aterrisou no aeroporto de Barajas em Madrid. O menino sentiu-se descendo para uma masmorra secular com velhos pendurados por correntes, velhos comendo ratos, velhos loucos andando em círculos. Já estava ali, não havia jeito.
O táxi os levou para um pequeno apartamento do bairro central “Puerta Del Sol” onde ficava o escritório que a mãe iria trabalhar. Despachou-os correndo, não podia parar ali, a Calle Carmen onde ficava o apartamento era uma imensa calçada só para pedrestes, levaram as malas imensas por 200 ms, o menino lembrou que antes de irem pras masmorras os velhos que não eram tão velhos e faziam serviços pesados.
Chegaram, tocaram a campanhia do pequeno prédio e um senhor de uns 80 anos abriu.
-Si?
A mãe explicou que era a nova inquilina do 31, mostrou os papéis e o velhinho os fez entrar.
-Tendrán que subir por las escaleras, el acendedor está roto....Disse, dando as costas.
-Roto mãe? –que quer dizer roto?
-Quebrado filho.
-Três andares de escada com toda essa bagagem? Nem pensou em pedir ajuda pro velho, qualquer frasqueira o faria esfacelar-se....
Subiram. Depois de 3 viagens, chegaram mortos, a Mãe por um momento pensou nas praias da “Gold Coast” e nas modernidades australianas.
O apartamento era bom, tinha uma varanda para a rua de onde podiam ver a estátua do urso alcançando a maçã; símbolo de Madrid.
-Olha o urso filho!
-Quem liga pra ursos? - quero ver um canguru, um coala, um demônio da Tasmânia!-quero ver praia, pessoas bonitas, aborígines, aqui tudo é velho mãe!
-Amanhã te levo pra passear no bairro moderno, vai ver que nem tudo é velho aqui.
-E olha essa tevê! –nem canal a cabo tem!
A mãe queria estourar, mas controlou-se, imaginava mesmo que os primeiros dias seriam difíceis, mas tinha esperança que com o tempo ele iria se acostumar...
E o tempo passou. O menino começou na escola e detestou:
-Mãe essa crianças da Espanha são chatas, só falam em futebol, e as meninas pensam que já são velhas, usam batom e laquê no cabelo!-mãe estou num pesadelo!
-Filho estou trabalhando!- vai tomar uma orchata e traz uma pra mim.
-Detesto orchata queria uma água de coco.
-Filho agüenta um ano, nas férias vamos pra Austrália. Prometo!
-Um ano mãe! –até lá vou estar com rugas!- aqui todo mundo tem rugas!
Nada adiantava, a mãe nos fins de semana o levava pras cidades das redondezas, Ávila, Segóvia, Toledo...
-Agora entendo esses caras do eta!- jogavam bombas pra fazer um país mais moderno!
-Não aprende nada nas aulas de história?
-Sim, sei tudo sobre a dinastia Habsburgo,a invasão dos mouros, a descoberta das Américas, onde idolatram Pizarro e não falam nada que roubou o ouro dos incas!
-Ai Meu Deus!
O tempo passou mais um pouco. Federico, um menino da escola, o chamou pra fazer parte do time de futebol, afinal brasileiro é brasileiro.
Ele foi meio contrariado mas foi, em pouco tempo era o capitão do time, todos o chamavam de Ronaldiño. Tornou-se popular.
Pilar uma vizinha linda, embora tímida, um dia criou coragem e perguntou de onde ele era.
-Brasil.
-Verdad ? A mí me gustaría conocer Brasil.
E conversa vai conversa vem começaram uma amizade, Pilar mostrou-lhe os pequenos lugares mágicos de Madrid, nada como uma guia local. “Pensou ele”.
Levou Pilar e a Mãe pra ver a final do campeonato na escola. Fez 3 gols. Ganharam.
Deram duas voltas pelo campo segurando “Ronaldiño” pelos braços!
A mãe ficou encantada
Pilar mais apaixonada.
A escola ganhou o campeonato. Tornou-se um ídolo por lá.
Chegaram as férias, hora de ir pra Austrália.
Não negou, mas foi meio contrariado. E Pilar? E os treinos? E a viagem de férias com os amigos pra esquiar na Itália?
No avião ficou mudo de novo, consolou-se com as nuvens rosas do fim de tarde. Viu Pilar sorrindo pra ele, viu a bola e viu o gol. Viu o Caminho de Santiago, mesmo sem nunca ter visto, ele e pilar combinaram ir pra lá quando tivessem 16 anos.
Num solavanco sua mente desviou o rumo, viu as menininhas de Queenland, nenhuma deveria ter os olhos de Pilar, viu os aborígines com bumerangues na mão. Já preferia as espadas de Toledo. Viu os cangurus...Alegrou-se. Tinha um plano, faria a mãe comprar um canguru e voltariam pra Espanha. Dormiu feliz....
fim
A mãe estava com as malas prontas pra embarcar pra Espanha, tudo premeditadamente
organizado; apartamento, colégio pro filho, papéis e vistos de trabalho, tudo arrumado. O pacote do sonho hispânico estava finalmente pronto, depois de anos ela conseguiu fazer com que a empresa que prestava serviços esporádicos, finalmente a contratasse, e melhor, seria gerente geral de produtos e lojas, o salário? Astronômico. Ela sabia; eles precisavam dela.
Havia um pequeno problema:
- Mãe! - Eu odeio a Espanha, eu não vou!-Quero ir pra Austrália, quero ter um canguru!
-Filho, mamãe falou há tempos, você tem 13 anos e não tem escolha vai comigo e pronto, vai amar a Espanha!- Já falamos muito sobre isso!
-Detesto a Espanha, detesto essas coisas velhas, prédios velhos, na Espanha todo mundo é velho mãe!
-Você mal conhece, foi uma vez, e era um menininho.
-Mãe não vou!-Vou ficar na casa do Vovô.
-O vovô também é velho...
A mãe não lhe deu ouvidos, ele iria com ela e pronto. Sabia que no fim, ela sempre cedia.
No dia do embarque eram duas almas na contra mão, a mãe exultante, o filho funesto.
No avião um pouco de paz, o menino sentado na janela via nuvens “de cangurus” por todos os lados, via aborígines com bumerangues nas mãos, via o mar, menininhas lindas surfando nas praias de Queenland......Num solavanco do avião mudou o foco, sua mente inverteu-se para a realidade e viu arenas com touros sangrentos, estátuas de reis usurpadores, catedrais assustadoras, ruínas de castelos árabes, e velhos, muitos velhos. Quis chorar, mas esforçou-se e tentou dormir.
Quando o avião aterrisou no aeroporto de Barajas em Madrid. O menino sentiu-se descendo para uma masmorra secular com velhos pendurados por correntes, velhos comendo ratos, velhos loucos andando em círculos. Já estava ali, não havia jeito.
O táxi os levou para um pequeno apartamento do bairro central “Puerta Del Sol” onde ficava o escritório que a mãe iria trabalhar. Despachou-os correndo, não podia parar ali, a Calle Carmen onde ficava o apartamento era uma imensa calçada só para pedrestes, levaram as malas imensas por 200 ms, o menino lembrou que antes de irem pras masmorras os velhos que não eram tão velhos e faziam serviços pesados.
Chegaram, tocaram a campanhia do pequeno prédio e um senhor de uns 80 anos abriu.
-Si?
A mãe explicou que era a nova inquilina do 31, mostrou os papéis e o velhinho os fez entrar.
-Tendrán que subir por las escaleras, el acendedor está roto....Disse, dando as costas.
-Roto mãe? –que quer dizer roto?
-Quebrado filho.
-Três andares de escada com toda essa bagagem? Nem pensou em pedir ajuda pro velho, qualquer frasqueira o faria esfacelar-se....
Subiram. Depois de 3 viagens, chegaram mortos, a Mãe por um momento pensou nas praias da “Gold Coast” e nas modernidades australianas.
O apartamento era bom, tinha uma varanda para a rua de onde podiam ver a estátua do urso alcançando a maçã; símbolo de Madrid.
-Olha o urso filho!
-Quem liga pra ursos? - quero ver um canguru, um coala, um demônio da Tasmânia!-quero ver praia, pessoas bonitas, aborígines, aqui tudo é velho mãe!
-Amanhã te levo pra passear no bairro moderno, vai ver que nem tudo é velho aqui.
-E olha essa tevê! –nem canal a cabo tem!
A mãe queria estourar, mas controlou-se, imaginava mesmo que os primeiros dias seriam difíceis, mas tinha esperança que com o tempo ele iria se acostumar...
E o tempo passou. O menino começou na escola e detestou:
-Mãe essa crianças da Espanha são chatas, só falam em futebol, e as meninas pensam que já são velhas, usam batom e laquê no cabelo!-mãe estou num pesadelo!
-Filho estou trabalhando!- vai tomar uma orchata e traz uma pra mim.
-Detesto orchata queria uma água de coco.
-Filho agüenta um ano, nas férias vamos pra Austrália. Prometo!
-Um ano mãe! –até lá vou estar com rugas!- aqui todo mundo tem rugas!
Nada adiantava, a mãe nos fins de semana o levava pras cidades das redondezas, Ávila, Segóvia, Toledo...
-Agora entendo esses caras do eta!- jogavam bombas pra fazer um país mais moderno!
-Não aprende nada nas aulas de história?
-Sim, sei tudo sobre a dinastia Habsburgo,a invasão dos mouros, a descoberta das Américas, onde idolatram Pizarro e não falam nada que roubou o ouro dos incas!
-Ai Meu Deus!
O tempo passou mais um pouco. Federico, um menino da escola, o chamou pra fazer parte do time de futebol, afinal brasileiro é brasileiro.
Ele foi meio contrariado mas foi, em pouco tempo era o capitão do time, todos o chamavam de Ronaldiño. Tornou-se popular.
Pilar uma vizinha linda, embora tímida, um dia criou coragem e perguntou de onde ele era.
-Brasil.
-Verdad ? A mí me gustaría conocer Brasil.
E conversa vai conversa vem começaram uma amizade, Pilar mostrou-lhe os pequenos lugares mágicos de Madrid, nada como uma guia local. “Pensou ele”.
Levou Pilar e a Mãe pra ver a final do campeonato na escola. Fez 3 gols. Ganharam.
Deram duas voltas pelo campo segurando “Ronaldiño” pelos braços!
A mãe ficou encantada
Pilar mais apaixonada.
A escola ganhou o campeonato. Tornou-se um ídolo por lá.
Chegaram as férias, hora de ir pra Austrália.
Não negou, mas foi meio contrariado. E Pilar? E os treinos? E a viagem de férias com os amigos pra esquiar na Itália?
No avião ficou mudo de novo, consolou-se com as nuvens rosas do fim de tarde. Viu Pilar sorrindo pra ele, viu a bola e viu o gol. Viu o Caminho de Santiago, mesmo sem nunca ter visto, ele e pilar combinaram ir pra lá quando tivessem 16 anos.
Num solavanco sua mente desviou o rumo, viu as menininhas de Queenland, nenhuma deveria ter os olhos de Pilar, viu os aborígines com bumerangues na mão. Já preferia as espadas de Toledo. Viu os cangurus...Alegrou-se. Tinha um plano, faria a mãe comprar um canguru e voltariam pra Espanha. Dormiu feliz....
fim
quarta-feira, 25 de abril de 2007

A Dança dos Orixás (poesias)
Ela tem a força de Ogum
As cores de Oxumaré
Valentia herdou de Oxóssi
Valentia herdou de Oxóssi
De Nanã, Sabedoria
Yemanjá lhe deu "Ser Mãe" com a garra de Xangô
Oxum, lhe deu ser "Mulher"
Oxum, lhe deu ser "Mulher"
Como um verbo a ser conjugado
Yansã que dela é a Guia
Deu o raio e a teimosia que irradia, irradia...
Deu o raio e a teimosia que irradia, irradia...
Ela pode até pode pensar
Que Oxalá a esqueceu
Por isso às vezes chora
por isso, às vezes tem medo
Ela ainda não sabe
Que Oxalá, sempre demora
e só sai de seu Congá
Pra neste mundo aparecer
Quando sabe que chegou a hora
Daquilo que tem que ser...
Pra neste mundo aparecer
Quando sabe que chegou a hora
Daquilo que tem que ser...
segunda-feira, 23 de abril de 2007

Desabafo (poesias)
Olha que não ta fácil...
Eu to ficando louca, ou to virando Budha
Tudo está em movimento, tuda fala;
O tapete do banheiro, o isqueiro, só falta entender a língua do porteiro
Achar o Graal e a pedra filosofal
E isso é tarefa mais fácil afinal.
A banca de revistas, virou a melhor diversão,
E o chamado do livro, uma bula papal.
As perguntas do meu filho
Viraram as minhas respostas,
Vejo filmes e falo as frases antes de mim.
Não existe dia e noite, nem começo, muito menos fim
Do tempo já não tenho noção
Matei Kronos e não tenho sono.
O anarquismo me possuiu
Me casei com uma ninfa yansã
Que tem muito de “yan”, e nada de sã
Estamos juntas há três chicos
E três Tpms iradas
Ambas recebemos os cruéis no mesmo dia.
E sangro tanto que perece que matei um bode
Assisti irmão urso 2, e depois efeito borboleta
Dormi entre deus e o capeta
Acordei, só depois que não dormi.
Vejo poesia em tudo, menos futebol e big brother
E como penso que já vejo o cume
Até música do Benito de Paula
Ando baixando no emule
Transformei o carnaval
Em visões da aurora boreal
Shiva, esse vejo todo dia,
Assim como Afrodite
Que.....?
Nem espero que ninguém acredite
É só um desabafo
Afinal sou uma Hereita,
A preferida de Safo...
Eu to ficando louca, ou to virando Budha
Tudo está em movimento, tuda fala;
O tapete do banheiro, o isqueiro, só falta entender a língua do porteiro
Achar o Graal e a pedra filosofal
E isso é tarefa mais fácil afinal.
A banca de revistas, virou a melhor diversão,
E o chamado do livro, uma bula papal.
As perguntas do meu filho
Viraram as minhas respostas,
Vejo filmes e falo as frases antes de mim.
Não existe dia e noite, nem começo, muito menos fim
Do tempo já não tenho noção
Matei Kronos e não tenho sono.
O anarquismo me possuiu
Me casei com uma ninfa yansã
Que tem muito de “yan”, e nada de sã
Estamos juntas há três chicos
E três Tpms iradas
Ambas recebemos os cruéis no mesmo dia.
E sangro tanto que perece que matei um bode
Assisti irmão urso 2, e depois efeito borboleta
Dormi entre deus e o capeta
Acordei, só depois que não dormi.
Vejo poesia em tudo, menos futebol e big brother
E como penso que já vejo o cume
Até música do Benito de Paula
Ando baixando no emule
Transformei o carnaval
Em visões da aurora boreal
Shiva, esse vejo todo dia,
Assim como Afrodite
Que.....?
Nem espero que ninguém acredite
É só um desabafo
Afinal sou uma Hereita,
A preferida de Safo...

(Fragmentos da Menina da Lancheirinha) Papai
Meu pai era e ainda é na minha visão, um homem muito bonito, dele herdei esses traços mouro-hispânicos típicos da Andaluzia. Alto , moreno, lábios grossos e um sorriso cativante. Só não veio pra mim sua cor levemente mais escura, que a do resto de nós. Mas estava em mim o poder de ficar negra ao sol, só eu e meu pai, minha mãe e meu irmão viravam pimentões.
Lembro como o achava o meu, o mais bonito dos pais da minha infância, era um homem que inspirava força, com um olhar sempre confiante.
Porém dele também herdei os cabelos que com meus sete anos começaram a ficar enrolados, e talvez tenha sido por causa dos seus olhos negros, que os meus nasceram com uma cor confusa. Hoje dizem que é mel, nunca gostei de ter olhos cor de mel, queria ter olhos verdes, verdes como o de toda família, tão verdes quanto os do meu irmão.
É preciso, Amor meu, explicar um pouco de suas origens...
Meu pai é filho de espanhóis, que vieram fugidos de Málaga, na Andaluzia , na época da ditatura Franco, com o tempo descobri que eram anarquistas.
Meu pai é filho de espanhóis, que vieram fugidos de Málaga, na Andaluzia , na época da ditatura Franco, com o tempo descobri que eram anarquistas.
Quando soube dessa história, lembrei-me de Lorca fuzilado por Franco, lembrei de todos artistas mortos em qualquer regime, onde criaturas têm que viver de acordo com a vida experimentada por uma outra mente. Nesses casos, mentes doentias obcecadas pela ordem, poder e outros sentimentos gerados pela incompetência de lidar com seu melhor, ( hoje sei que cultivar nosso melhor é a parte mais difícil), optam por lidar com o mais fácil e tornam-se
mitos de atrocidade pelo mundo...
Quando penso em meus avós fugindo de sua Terra, de suas terras penso em todos esses artistas amputados de suas expressões, penso em Buñuel, Neruda, Dali, Reinaldo Arenas, penso nos que puderam se esquivar ou muitas vezes dissimular seus dons para sobreviver, e penso nos que por serem tão intensos, lutaram até o fim sem sair do lugar, não traíram suas mentes, nem suas convicções. Foram até o fim...Mas penso em todos e por muito tempo e até hoje não nego, exalto quem sabe morrer por um ideal....
mitos de atrocidade pelo mundo...
Quando penso em meus avós fugindo de sua Terra, de suas terras penso em todos esses artistas amputados de suas expressões, penso em Buñuel, Neruda, Dali, Reinaldo Arenas, penso nos que puderam se esquivar ou muitas vezes dissimular seus dons para sobreviver, e penso nos que por serem tão intensos, lutaram até o fim sem sair do lugar, não traíram suas mentes, nem suas convicções. Foram até o fim...Mas penso em todos e por muito tempo e até hoje não nego, exalto quem sabe morrer por um ideal....
Acho que essa herança genética de rebeldia que herdei, liquidificou-se em outros anarquismos gerados por mim mesma, como o “Maravilhoso Anarquismo do Amor”. Tudo em mim era advindo do amor.
Amava as histórias de amores viscerais como em “Abelardo e Heloisa” onde Heloisa na hora de sua morte, “morte de amor”...Preferiu quebrar a cruz ao beijar o símbolo que destruiu sua possibilidade de estar com Abelardo ...Também morto por amor....
Por isso também sempre me fascinei pelas histórias de poetas e escritores e compositores que não agüentaram tanto amor em vida, e buscaram-na na morte, seja suicídio planejado, seja matar-se aos poucos através de substâncias que acalmam ou exacerbam sua pulsante criação...Seja descuidando-se de si mesmo, e entregando-se mais e mais para essa “vida morte” que em suas almas latejantes eram um lugar único. O templo idílico pra onde olhavam quando
produziam sua arte, ato supremo de expressão. Por isso, os mais intensos morreram tão jovens...
Amava as histórias de amores viscerais como em “Abelardo e Heloisa” onde Heloisa na hora de sua morte, “morte de amor”...Preferiu quebrar a cruz ao beijar o símbolo que destruiu sua possibilidade de estar com Abelardo ...Também morto por amor....
Por isso também sempre me fascinei pelas histórias de poetas e escritores e compositores que não agüentaram tanto amor em vida, e buscaram-na na morte, seja suicídio planejado, seja matar-se aos poucos através de substâncias que acalmam ou exacerbam sua pulsante criação...Seja descuidando-se de si mesmo, e entregando-se mais e mais para essa “vida morte” que em suas almas latejantes eram um lugar único. O templo idílico pra onde olhavam quando
produziam sua arte, ato supremo de expressão. Por isso, os mais intensos morreram tão jovens...
E foram tantos, Sylvia Plath no bico do gás, Alfonsina de encontro ao mar, Florbela, Ana Christina Cezar, Hemingway, Wilde, Cobain, Joplin, Augusto dos anjos, Álvares, e tantos..tantos...
Eu conhecia essas histórias desde menina, papai comprou um dia, uma enciclopédia, eram uns 20 livros, cada um com seu tema .Chamava-se “O mundo da Criança”, acho que como fui a única leitora compulsiva de todos eles, descobri muito cedo a história de grandes compositores clássicos.
Como Mozart, Wagner, Tchaikovsky , e suas vidas sempre difíceis, descobri a dificuldade dos poetas, escritores, li histórias de amor que mesmo na forma de contos de fadas ainda eram muito tristes...
(O mundo da criança Amor é muito intenso, se você o descobre nos livros sem arautos sensatos, isso pode trazer mais tarde, dor. Meu pai me deu o melhor presente que tive “O mundo da Criança” daquelas imagens e figuras foi feita uma parte de mim. Depois da tragédia, inverti um pouco as palavras e as imagens. Não... Inverti completamente)
Eu conhecia essas histórias desde menina, papai comprou um dia, uma enciclopédia, eram uns 20 livros, cada um com seu tema .Chamava-se “O mundo da Criança”, acho que como fui a única leitora compulsiva de todos eles, descobri muito cedo a história de grandes compositores clássicos.
Como Mozart, Wagner, Tchaikovsky , e suas vidas sempre difíceis, descobri a dificuldade dos poetas, escritores, li histórias de amor que mesmo na forma de contos de fadas ainda eram muito tristes...
(O mundo da criança Amor é muito intenso, se você o descobre nos livros sem arautos sensatos, isso pode trazer mais tarde, dor. Meu pai me deu o melhor presente que tive “O mundo da Criança” daquelas imagens e figuras foi feita uma parte de mim. Depois da tragédia, inverti um pouco as palavras e as imagens. Não... Inverti completamente)
sexta-feira, 20 de abril de 2007

(Fragmentos da Menina da Lancheirinha) Mamãe
Minha mãe e sua aparência física é quase uma incógnita para mim. Quando criança ao olhar pra ela, percebia que não era um mulher linda, não tão bonita, quanto achava meu pai, nem um simples traço que lembrasse a beleza nas fotos antigas de minha avó.
Minha mãe, entre os quatro filho, acho que foi a única que herdou traços do meu avô,como a boca fina demais, os olhos tristes, embora verdes, como quase toda família. Também projetava um nariz agressivo, pequeno e muito fino, sua altura também não ajudava muito, um metro e cinqüenta.
Digo que sua aparência era uma incógnita porque algumas vezes olhava pra ela e via a mulher mais linda do mundo, via uma Elisabeth Taylor jovem, e muito mais bonita.
Um dia quando seus primeiros cabelos brancos apareceram , cheguei em casa e encontrei uma mãe loira. Nunca mais então tive aquela visão de musa. Algo havia saído do seu lugar.
Digo que sua aparência era uma incógnita porque algumas vezes olhava pra ela e via a mulher mais linda do mundo, via uma Elisabeth Taylor jovem, e muito mais bonita.
Um dia quando seus primeiros cabelos brancos apareceram , cheguei em casa e encontrei uma mãe loira. Nunca mais então tive aquela visão de musa. Algo havia saído do seu lugar.
Minha mãe como eu disse não era muito carinhosa, mas eu queria seus carinhos e quando queria muito sabia como conseguir, não era sempre, mas às vezes eu queria tanto que inventava uma dor, um queda, ou qualquer história pra me vitimizar, quando ela não entendia, quando minhas palavras não bastavam pra alcançar meu objetivo, eu corria chorar atrás da poltrona vermelha da sala de estar, aí sim, ela vinha:
-Que foi amor?
E me dava finalmente seu colo. "Aprendi que atrás da poltrona vermelha é que estavam escondidos os abraços da minha mãe."
-Que foi amor?
E me dava finalmente seu colo. "Aprendi que atrás da poltrona vermelha é que estavam escondidos os abraços da minha mãe."
Eu lembro de momentos eternos, digo eternos porque quando você os têm, no momento que sente, você pensa “Este Momento Será Eterno” , claro que não pensa exatamente assim, mas sente....Existiu um momento precioso demais em minha infância, que veio tão desregrado que tenho que parar pra pensar.
Foi o momento que descobri o quanto amava minha mãe e quanto carinho e cuidado tinha por ela, foi assim, ela estava dentro do “Armarinho-que-ficava-debaixo-da-escada” eu estava passando e a vi, fiquei espiando o que fazia.
Ela procurava uma lâmpada; lá era uma espécie de depósito, então achou a lâmpada olhou pra ela e a chacoalhou....
Hoje sei que se chacoalha uma lâmpada pra ver se está quebrada, mas naquele dia, não sabia. Não sei por que está visão me marcou tanto. Se fosse possível expressar o que senti numa frase diria assim “Nossa, eu amo imensamente essa pequena mulher que chacoalha a lâmpada”
Hoje sei que se chacoalha uma lâmpada pra ver se está quebrada, mas naquele dia, não sabia. Não sei por que está visão me marcou tanto. Se fosse possível expressar o que senti numa frase diria assim “Nossa, eu amo imensamente essa pequena mulher que chacoalha a lâmpada”
É fácil metaforizar isso de várias maneiras, livros, idéias, lâmpadas....Mas o que senti naquele dia não foi pensado, foi só uma explosão espontânea de amor profundo por um ser...

Quem é Ela
E alguém perguntou:
-Quem é ela?
E ninguém soube responder
Porque ela é indefinível
É um desenho de menino
Ânfora perdida da Atlântida
Cheiro de aurora boreal
Sereia abissal
E alguém insistiu:
-Quem é ela?
E ninguém ousou definir
Porque ela é um ser entre-mundos
O coração de um arco-íris
Luz de boitatá
Espinho da flor de lótus
Consciência dos fótons
E alguém mentiu:
-Eu sei quem é ela!
E todos quiseram saber
Porque ela é inexistente
Vive no sol poente
Caminha na minha mente
Miragem de um louco
De tudo que não há, um pouco
E alguém perguntou:
-Quem é ela?
E ninguém soube responder
Porque ela é indefinível
É um desenho de menino
Ânfora perdida da Atlântida
Cheiro de aurora boreal
Sereia abissal
E alguém insistiu:
-Quem é ela?
E ninguém ousou definir
Porque ela é um ser entre-mundos
O coração de um arco-íris
Luz de boitatá
Espinho da flor de lótus
Consciência dos fótons
E alguém mentiu:
-Eu sei quem é ela!
E todos quiseram saber
Porque ela é inexistente
Vive no sol poente
Caminha na minha mente
Miragem de um louco
De tudo que não há, um pouco

(Fragmentos da Menina da Lancheirinha)
Eu e meu Irmão
Quando penso na rua das Hortências-86, tenho que pensar muito no Lalo, mais do qualquer outro lugar, pois essa foi a época que realmente convivemos, trocamos e ensinamos um ao outro, experiências e interesses que passaram a ser dos dois, embora, quem nos veja hoje, diga que somos parecidos fisicamente, no quesito “personalidade” sempre fomos opostos, por isso havia uma boa troca, uma infância extremamente criativa recheada de muitas brigas....
Opostos são elementos incríveis para a “experiência da convivência”, éramos opostos em tudo , até nos signos, eu, escorpião , ele touro, eu fechada, ele aberto, eu intensa, ele plácido, eu profunda, ele um lago...
Tantas diferenças nessa época, fizeram o jardim das nossa delícias, brincávamos tanto que passamos a incorporar elementos um do outro, pegamos nessa época, o melhor de cada um e formamos um par que passou a ter os mesmos gostos, os mesmos amigos, (apesar dos seus 4 anos a mais) e a necessidade do outro para compreender certas brincadeiras que eram só nossas.
Adorava acordar bem cedo nos fins de semana quando ele não ia à escola porque sabia que já estaria na sala brincando com alguma das nossas criações especiais.
Foi o que já falei antes amor, tínhamos um dom inerente de brincar com os objetos, não da maneira certa, mas recriá–los. Como disse "brincávamos do avesso"
Adorava acordar bem cedo nos fins de semana quando ele não ia à escola porque sabia que já estaria na sala brincando com alguma das nossas criações especiais.
Foi o que já falei antes amor, tínhamos um dom inerente de brincar com os objetos, não da maneira certa, mas recriá–los. Como disse "brincávamos do avesso"
O óbvio nunca nos contentou, figurinhas não eram coladas nos álbuns, mas sim personagens e seres , se fossem de carros, fazíamos uma cidade, com lojas, estradas e trânsito, se fossem animais fazíamos uma floresta, com reinos, mundos mágicos, história e contexto. Sempre cada um era um personagem, a primeira pergunta que eu ou ele sempre fazíamos antes de qualquer brincadeira era:
-Você vai ser quem?
-Você vai ser quem?
Nossas brincadeiras favoritas eram os carrinhos de ferro, brincar de “hominho” (forte-apache) ou Arfix, (bonequinhos diminutos, que quase ninguém conhece) “bichinho” onde com centenas de animaizinhos de plástico, criávamos um universo insólito, poli e ministeck. Estes dois últimos são brinquedos tipo Lego de antigamente, só que ao invés de fazermos casinhas ou brincar com as formas, fazíamos personagens e criávamos o conteúdo, era isso Amor.
Eu e o Lalo, queríamos conteúdo, aventuras, histórias, não brinquedos de montar, figurinhas de colar, etc...
Também brincávamos sem brinquedos. Nós éramos os brinquedos de carne e osso, mas sempre com um enredo, sempre com personagens.
Também brincávamos sem brinquedos. Nós éramos os brinquedos de carne e osso, mas sempre com um enredo, sempre com personagens.
Como o “só nós”, o melhor era brincar de escalar as paredes do corredor que ligavam os quartos. Esse corredor tinha um pé direito altíssimo, colocávamos o colchão da cama da minha vó embaixo, e escalávamos até o teto, com uma perna em cada parede, bem, eu chegava até o teto, ele não se arriscava tanto, e de lá nos jogávamos naquele mergulho delicioso ao colchão. Era delicioso demais, mas, essas brincadeiras do “só nós” sempre acabavam quando minha vó
chegava...
chegava...
Ela não gostava de coisas tão malucas, nessas horas dizia:
-Hilárinho! Olha as coisas que você ensina pra sua irmã!
Mal sabia ela, que muitas dessas coisas eu que ensinava
(Amor, o Lalo foi para minha infância, um Dom Quixote e um Sancho Pança. Nossas aventuras eram tão inquietantes , e únicas...Éramos tão unidos. Mesmo quando me batia e eu corria chorar em algum lugar, não durava nem cinco minutos, pra voltarmos às brincadeiras, na verdade seus soquinhos nunca doeram demais. Eu compreendia naquela época que as brigas são também o avesso das brincadeiras, depois perdi esse talento. Depois da tragédia ganhei quase tudo e perdi quase todos...Todos que realmente interessavam...)
quarta-feira, 18 de abril de 2007

(Fragmentos da Menina da Lancheirinha)
Os Pintinhos Coloridos
Vovó de manhã, antes dos meus pais chegarem me levava pra todo lado. Amava ir com ela ao supermercado.
Subíamos a ladeira tênue da rua das hortências-86 , e virávamos à esquerda na rua das Orquídeas, onde ficava o mercado, lá eu colocava no carrinho tudo que queria, vovó tirava algumas coisas, por isso eu sempre colocava mais do que realmente desejava.
Uma vez o mercado fez uma espécie de promoção, se comprássemos uma quantidade de alguma coisa, ganhávamos pintinhos coloridos, eu quis. Vovó pensou, mas não negou, peguei um verde e um rosa, o verde pro meu irmão. Imagine Amor, acho que só porque estava com ela é que escolhi o rosa..
Os pintinhos fizeram minha festa por uma semana, depois morreram, eu não vi esse momento obscuro, simplesmente uma manhã disseram que morreram, eu perguntei onde estavam enterrados:
-Coloquei no lixo. Respondeu dona Geralda. Vovó ficou quieta.
Eu tinha que ver o pintinho morto... Amor, esse foi um momento terrível...Até hoje não compreendo como puderam fazer isso, mas eu vejo a cena como se fosse hoje havia me esquecido.
Fui para o quintal e abri a tampa da lixeira de metal...Amor, o pintinho rosa ainda estava vivo! Agonizando...
Fiquei muda, nunca questionei isso: “Pessoas são às vezes cruéis e podem surpreender”.
Subíamos a ladeira tênue da rua das hortências-86 , e virávamos à esquerda na rua das Orquídeas, onde ficava o mercado, lá eu colocava no carrinho tudo que queria, vovó tirava algumas coisas, por isso eu sempre colocava mais do que realmente desejava.
Uma vez o mercado fez uma espécie de promoção, se comprássemos uma quantidade de alguma coisa, ganhávamos pintinhos coloridos, eu quis. Vovó pensou, mas não negou, peguei um verde e um rosa, o verde pro meu irmão. Imagine Amor, acho que só porque estava com ela é que escolhi o rosa..
Os pintinhos fizeram minha festa por uma semana, depois morreram, eu não vi esse momento obscuro, simplesmente uma manhã disseram que morreram, eu perguntei onde estavam enterrados:
-Coloquei no lixo. Respondeu dona Geralda. Vovó ficou quieta.
Eu tinha que ver o pintinho morto... Amor, esse foi um momento terrível...Até hoje não compreendo como puderam fazer isso, mas eu vejo a cena como se fosse hoje havia me esquecido.
Fui para o quintal e abri a tampa da lixeira de metal...Amor, o pintinho rosa ainda estava vivo! Agonizando...
Fiquei muda, nunca questionei isso: “Pessoas são às vezes cruéis e podem surpreender”.
Foi um alface que plantei contrariada no “pomar das minhas recordações”. Vovó não poderia ser cruel.
(Os nossos mitos, Amor não podem falhar, quando falham, fingimos não ver, ou perdemos o mito. Hoje sei que não devemos ter mitos e, além disso, entender que todos falham, invariavelmente. Todos tem os seus motivos, todos “temos” nossos maus momentos, não nos cabe julgamento)
E eu queria minha vó mesmo que tivesse matado todos os pintinhos do mundo! Era uma menina descobrindo o mundo...Minha menininha...Em que fiz você se transformar?
Tentações de Santo Antão

-Ele disse:
Está sendo testada pelos Deuses!
Eu pensei
“Estou sendo testada pelos Deuses”
“Tentações de Santo Antão”
Há cada movimento
O tormento de não saber
Quem ou o que escolher
O que é certo, o errado o que é?
-Pergunte pra sua alma!
“Calma”
Não é tão fácil assim
Caminhos tantos
Tantos, parece nenhum nesse contexto
De tentações
Tentações de Santo Antão
Só podia ser obra de Bosch
O que fazer Antão?
O que fez você?
Santo Atanásio é que responde:
“Confrontou-se com demônios”
“Demônios de todos os planos”
E sobreviveu!
-Santo Atanásio, com respeito,
com demônios confrontei-me a vida toda.
E sobrevivi.
Hoje certamente está no céu.
-Não sabe de fato?-Não é Santo também?
-É grande o céu...
“É grande o céu”
-Foi então para o deserto.
-Todos vão para o deserto...Devia ser o que tinham por perto...
-Cruzou o Nilo, e viveu nas montanhas.
-Depois de 20 anos só, passou a ensinar outros monges.
-Ensinar o quê?-O que se aprende sozinho?-O som dos passarinhos?
-Depois foi para Alexandria, lutar contra o paganismo.
-Atanásio!-Chega por hoje.
“Atazanando vem de ti?”
-Que Santo Antão me perdoe,
Prefiro Olimpo que o céu.
Pagãos a cristãos.
Companhia a solidão
Confrontar Deuses é mais saboroso
Que lutar contra demônios.
Cada Deus, uma canção..
Vem aprender comigo “Antão”
terça-feira, 17 de abril de 2007
O Jardim De Tulipas

Eu estava só num jardim de tulipas,
Não havia nada além de tulipas...
Um campo imenso, rubro sob um céu escarlate que se misturava com as flores formando uma paisagem de sonhos...Eu também estava vestida de vermelho, e por dentro sangue....
Podia sentir o gosto do sangue que jorrava por todos os lados do meu coração, cobrindo qualquer outro órgão, que não havia mesmo porquê existir...
Você, não estava ali... E eu sabia que ninguém além de você, seria capaz de me tirar dali, estava certa agora, depois de tanto tempo, que nem os Deuses, talvez por não quererem, talvez por não saberem, jamais me trariam outro amor...
Nesse instante compreendi que nosso amor foi talhado por finas mãos divinas, formando uma escultura tão perfeita, que não havia como a vaidade da divindade, quebrar essas algemas...
E assim seria minha vida terrena, só sem você, eternamente...
Porém não havia sofrimento, havia o contentamento de amar alguém assim...
E então apareceu do nada, três criaturas bizarras... Pude saber que eram as Moiras encarnadas a tecer o meu destino... Soube através de uma abelha sem asas, que sentada em meu joelho me contou onde estivera:
-Estive há pouco ali entre elas, entre a roca e a tesoura.-Vi Cloto a que tecia, rir e chorar ao ver o fino fio do seu destino que estava em suas mãos. Sabia que era o fio do seu destino porque pude ouvir seu nome entre os gemidos lancinantes que as três velhas pelos Deuses empregadas, ali muito alarmadas deixaram escapar.... Cloto a que tecia não entendia por que de repente o fio que nasceu da roca, no começo normal, de repente se transformava, e em um novo tom se mostrava, um tom de um vermelho carnal:
-Não entendo. Disse Cloto com sua voz rouca esganada-Em todos destinos que fiz não encontrei nenhum assim...-Nasce fino como o sopro do vento, mas aqui, onde quase arrebenta nasce um pequeno fragmento, vermelho, forte como um fio de cobre, que diria ser de cobre se não sentisse o cheiro de sangue misturado com jasmim...-Nunca vi um fio assim...
-Láquises a que segurava o fio por ser mais sabia explicou...-A vida dessa mulher abruptamente mudou de rumo... -Vê aqui, onde muda de cor? -Foi aqui, nesse instante que descobriu o amor... -Mas que amor è esse? Brandiu Cloto indignada -Já teci tantas vidas, de tantos amores intensos, verdadeiros e sinceros, este não é normal deve ser coisa de Eros... -Já tive nas mãos o destino de tantos; Tristão, Isolda, Abelardo, Heloisa, já tive Dante e Beatriz, tive Pedro tive Inês, mas nada como este parecido! Pelos Deuses do elegido, que terá acontecido?
Átropo a que cortava, segurava a tesoura e nada dizia, mas pela primeira vez pude ver que sua velha mão tremia...
-Bem, não há nada a fazer, esse fio do outro mundo esta finalmente cerzido, nossa missão para com esse destino há de acabar na tesoura de Átropo, tome tu ó própria morte, vamos!-Esse fio enfim corte!
E então na vasta imensidão do campo de tulipas,ouviu-se um berro sincero, vindo de dilacerada voz, ébria de medo e aflição e da boca de Átropo ecoou decisivo...
-Não! -Não ouso cortar esse fio, nem ousa minha tesoura, já viram algo assim?-Um fio de sangue com aroma de jasmim? -Do alto os Deuses nos vêm, e se vem deles essa obra não serei eu a destruí-la...-Prefiro cegar a tesoura, prefiro por vocês ser banida a sequer me aproximar de ceifar esta vida...
Cloto ficou indignada:
-Não compreende que há a lei? -Quantas vezes minha roca tecer, quantas vezes Láquises medir, sua tesoura há de cortar...-Não entende que é assim o destino dessa gente? -O que a faz tão demente?
-Se a questão é cortar, corto as asas dessa abelha, que nos ouviu o tempo todo sabendo o quão é proibido e sempre há de ser...Ver o nosso trabalho...Tecer, medir e ceifar, ceifar, medir e tecer...
-E numa só tesourada fez sumir minhas asas e assim cai no chão morta de dor e tensão... E vim aqui te contar que nunca mais vou voar, porque o fio do seu destino era assim nem sei como, tão importante, que preferiram fazer pelo resto dos dias uma abelha rastejar que sua vida cortar.....
Eu então olhei pra abelha, mas não fiquei compadecida, nem fiquei aliviada.... Sabia que quem salvou minha vida... Foi você, mais nada....
segunda-feira, 16 de abril de 2007
"Anti-Prece"

Desprezo mestres e sacerdotes de qualquer religião
Que usam fantasias e alegorias, e não o coração
Desprezo padres com seus vestidos brancos ou pretos
Conforme a premissa da missa
Cardeais avermelhados com "falos" na cabeça
Madres e freiras que só mostram o rosto de um corpo velado
E se esquecem que Jesus morreu na cruz, quase pelado
Desprezo monges budistas e jainistas com vestes de cetim vermelho e cabeça raspada
Era entre trapos que Sidarta mostrava, sua alma iluminada
Desprezo os pais-de-santo que colocam uma capa preta pra dizer “eu sou Exu”
Desprezo os mestres espíritas que só se vestem de branco
Como se a cor levasse ao céu
Kardec só chegou a isso, quando entrou em seu próprio carrossel
Desprezo os swamis hinduístas com e seus colares floridos sobre um manto ocre quase cru
Shiva e Krisnha mostravam somente a pele Azul...
Desprezo os rabinos que pensam que barba, kipá e a leitura do torá
É o que agrada Salomão
Desprezo muçulmanos que escondem suas mulheres com hijabs e defendem seu alá
A ponto de matar...
Desprezo os tais pastores evangélicos, com seus ternos armani
E a maneira como aprendem com experts, o tom de falar sempre igual
Desprezo os mestres daimistas, filhos de Irineu
Que somente fardados cantam seus hinários
Acham que a sem a farda não encontram Deus
Desprezo sim sacerdotes wiccanos que só usam preto e no pescoço um pentagrama
A Mãe Terra que tanto amam, é o azul do céu, o branco da lua, o verde da grama...
Desprezo enfim o desejo que há em mim
Ou em qualquer ser humano
De expressar a fé, e mostrar um coração.
Através de fantasias, patuás
E a arte da decoração
O Amor está dentro, e não além
A Liberdade é meu amém...
(Fragmentos da Menina da Lancheirinha) Imagens e PerguntasSim, para mim, nessa época tudo era interessante, me entregava por inteiro a cada nova pequena descoberta, cada objeto, história, bicho, inseto, som. Toda impressão me impregnava, algumas apenas passavam. Eram entendidas mas por não fazer parte dos elementos que eu julgava imprescindíveis deixava-as ir. Outras me cativavam a tal ponto que entraram e se juntaram ao ser que eu era, para como pequenas sementes, crescerem em meu jovem e fértil terreno interno. Dessas coisas, essas, que nos cativam ao primeiro encontro posso definir; os livros e suas imagens, um gravador com cassete, "a vitrola nova", papel e lápis, e a mais fascinante, e relevante; “perguntar”.
Eu não sabia ficar sem respostas, nunca soube, perguntava sobre coisas, histórias e pessoas, e ia gravando tudo em minha mente. Tenho em mim, cada história intensa, ou banal que ficaram marcadas no meu imenso banco de dados.
Mais tarde, principalmente depois da tragédia, minhas perguntas foram ficando mais constantes, mais intimistas, mais insistentes, aflitas...Queria saber, necessitava saber, o que as pessoas pensavam de mim... Isso é peso demais pra uma criança; foi o primeiro abuso que a tragédia me causou...
Eu não sabia ficar sem respostas, nunca soube, perguntava sobre coisas, histórias e pessoas, e ia gravando tudo em minha mente. Tenho em mim, cada história intensa, ou banal que ficaram marcadas no meu imenso banco de dados.
Mais tarde, principalmente depois da tragédia, minhas perguntas foram ficando mais constantes, mais intimistas, mais insistentes, aflitas...Queria saber, necessitava saber, o que as pessoas pensavam de mim... Isso é peso demais pra uma criança; foi o primeiro abuso que a tragédia me causou...
(Logo mais essa minha obsessão, vai mostrar sua origem, e tudo vai parecer muito claro, tudo é claro meu amor... Tudo! )
Shiva

Shiva, Shiva,
Meu amor, meu destruidor.
Shiva, Om Nama Shivaia
Shiva não vá, ainda não...
Por que me trouxe de tão longe?
Pra esse reino azul, pra sua pele azul, por quê?
Sua canção colocou ouvidos no meu coração.
Shiva, Shiva, isso não se faz não...
Om Nama Shivaia
Seus olhos têm tantas janelas.
Por que me prendeu neles, e fechou todas elas?
Como vou sair, daqui...
Me solte ou não vá, não vá.
Shiva..não vá...
Oh não vá Shiva, não vá...
Você já me destruiu...e estou tão feliz
Estou por um triz, por um triz de tão feliz!
Sonhei tanto em amar você no Ganges,
Vi devotos do nosso amor, jogando flores de todas as cores azuis,
No mar onde navegamos nosso amor serpenteado,
Seu corpo quando ama fica dourado, eu quando morro ardo...
Essa serpente em seu pescoço
Essa serpente era eu, como um colar
Te envolvendo , te mordendo, te esmagando
E você morrendo sobre seu próprio mar....
Milhares de portos pra atracar tanto amor...Tanto amor.
Cobri o seu corpo de beijos até o momento supremo.
Que do alto do firmamento, apareceu um lamento do resto do mundo.
Como um grito de tédio a reclamar.
Todo vinho, todo vício, todo amor que eu roubei só pra te dar.
Pra te seduzir, te enfeitiçar...
Shiva, sonhei tanto...
Não sabia o certo, nem o errado.
Sonhei que eu era sua Parvati.
E entendi que era só uma parte.
Da sua rota divina
(Mas eu já estava em sua retina)
Por isso pedi, me destrua!
Sou sua, já sou sua!
Você me amou naquela noite
Chorou quando amanheceu,
E sem hesitação.
Destruiu-me e esvaeceu...
Nataraja vem!
Shiva Nataraja vem!
Vem me reconstruir!
Nataraja vem!
E dançando com seu Damaru.
Você, com outro nome voltou.
Pegou o pó que restou.
Trouxe pro Novo Mundo.
E aqui me plantou em solo mais fecundo...
Calma Shiva, Shiva calma...
Vou crescer em um segundo...

-Ela não era definitivamente uma mulher como as outras.
-Porque não? –O que tinha de especial?
-Olha só...
Cavalo-Marinho Cor-de-Laranja (Contos)
-Saco!-Existem sim...
-O que existe?
-Cavalos-marinhos cor-de-laranja, estou desolada...Hippocampus safados!
-E daí?
-E daí cacete? – E daí que falei pra uma amiga que não existiam e existem.
-Qual a diferença?
-Total!- Fiquei de dar a ela um cavalo-marinho laranja, porque pensamos que não existissem, mas existem olha aqui na internet, laranja como uma manga!
-Como daria se não existisse?
-Aí é que vem o melhor, dar a alguém algo que não existe!- Entende?
-Já deu algo que não existe a alguém?
-Diversas vezes.
-Péra aí que vou pegar uma cadeira, o quê por exemplo?
-Tantas coisas!-Difícil pensar agora.
-Fala uma!
-Agora não dá cara!-Preciso procurar alguma forma de achar um cavalo marinho que não existe, embora exista .Beijo.
-Péra!
-Quê saco!
-Depois me dá uma coisa que não existe?
-Sim, o quê?
-Hummm.-Uma borboleta que cante!
-Mais fácil, combinado, beijo!
-Beijo, doida.
E ela foi, perdida entre lampejos desestruturados de derrota, não poderia dar algo que já existisse, poderia sim falar com a amiga, mas ela não era mulher de voltar atrás, precisava dar a ela um cavalo-marinho laranja que não exista, sendo que existem. Sentiu-se de repente dentro de um conto zen budista, isso era um koan, uma pergunta sem resposta, “mas segundo os mestres, nenhuma pergunta é isenta de respostas”. Pensou.
Uma luz veio a sua cabeça, resolveu procurar um mestre zen, sim, lembrou-se de sua época de estudante gnóstica e da terrível pergunta sem nexo que devastou sua mente por meses, meses de noites insones, até que desistiu:
"Qual o som de uma única mão que bate palmas?". “Ah, que pergunta besta! Sei que não entrei em estado de Shamadi nenhum , nem tive iluminação alguma, nem deixei a mente branca, sei que essas noites foram um saco!”
“Se desisti antes, agora não vou desistir, talvez seja uma prova de Budha! Vou procurar um mestre Zen. Na liberdade será que tem?” .
Antes se lembrou de uma amiga que fazia parte de um grupo zen ou algo assim, ligou:
-Leonor?
-Oi amiga, que manda?
-Leonor preciso de sua ajuda, você não me disse outro dia que fazia parte de um grupo zen ?
-Que?- não!- Faço jiu jistu!
-Mas é tudo meio igual né?
A amiga riu:
-Nada a ver, jiu jistu é uma arte marcial, mas vem cá, pra quê você quer um grupo zen?
- Não quero um grupo zen, tenho horror a isso desde a gnose, quero um mestre zen!
-Você que tá engajada nessas orientalidades sabe como eu posso achar um?
-Hum...dexavê...-Ah, meu mestre deve conhecer algum grupo, vou perguntar pra ele, tenho aula amanhã.
-Não Leonor!-Você não tá entendendo!-Preciso de um mestre zen agora!- Ontem!
-Mas porquê criatura? – Que aconteceu?
-Uma hecatombe em minha vida!- Me dá o telefone desse seu mestre de jiu jitsu.
-Olha só, você sabe que eu paquero ele, vê lá hein?
-Ah dá logo! –Sabe muito bem que esses fortões não são minha praia!
-Sei.-Peraí , 5674555, anotou?
-Beijo!
Ligou.
-Alô?
-Oi é o Otaviano?
-Sim?-Quem é?
-É uma amiga da Leonor, sua aluna, preciso da sua ajuda, preciso urgente de um mestre zen!
-Que Leonor?
“Cacete”
-Leonor sua aluna de jiu jitsu!
-Não lembro, são muitos alunos, mas porque precisa de um mestre zen?
-Conhece algum? –Questão de vida ou morte!
-Olha, até conhece o mestre Kin Lin, mas ele ta em Miami.
“Que um mestre zen vai fazer em Miami?”
-Mas deveria estar na China!
-Aí é com ele né?- Mas será que eu não posso ajudar?
-Conhece koans, contos sufis, acredita em milagres? Desesperou-se.
-Conheço um pouco.
-Pode assim, por fone mesmo me responder uma pergunta?
-Posso tentar, mas você não prefere tomar um café?
-Não tenho tempo, olha, presta atenção, tá prestando?
-Toda gata.
“Ai Leonor, fim de carreira hein?”
-Como acho um cavalo-marinho laranja que não exista, se existem cavalos-marinhos cor-de-laranja?
-Quê?
“Roubada”
-Nada cara, beijo!
-Ei péra!- é só explicar direito!
-É isso, preciso de um cavalo-marinho laranja que não exista, só que sei que existem cavalos-marinhos dessa cor!
-Entendi.
-Entendeu? Surpreendeu-se.
-Meu!-Difícil hein?
-Sabe ou não?
-Deixa eu pensar.-Cavalos-marinhos, laranjas, existem, mas não podem, hummmmm.
-Que tá fazendo?- Meditando?
-Eu tenho um cavalo-marinho laranja.
-Grande merda!-No pet shop também tem.
-Mas o meu não existe.
-Ah cara, ta tirando uma?
-Vem aqui em casa e te mostro.
“Sei o que ele quer me mostrar”
-Olha, valeu.-Beijo.
-Você que sabe gata.
-Explica.
-É um cavalo-marinho certo?
-Certo
-Laranja, certo?
-Sim.
-Mas não existe certo?
-Tá pensando que sou retardada?-Vá direto ao ponto! “Putz, falei merda, vai pensar que é indireta”
-Então gata, tenho um.
-Sei, vou chegar aí olhar pro seu aquário de peixinhos e você vai me falar “Olha ele tá lá, só que você não vê porque não existe.” –acertei?
-Você vai ver.
“Que faço agora Budha? Quero uma luz!”
-E como não existe se está aí e eu vou ver?
-E como não existe se está aqui e você vai ver?
-Porra isso é um Koan?
-Quê?
-Meu você nem sabe o que é koan?
-Sei sim.
-O que é?
-Qual o som de uma única mão que bate palmas?
-E descobriu essa porra?
-Claro!
-Me dá seu endereço, tô indo praí, mas ó , eu luto Box!
-Tranqüilo gata.
E ela foi. No carro pensou e repensou. “O cara deve ser um débil mental, primeiro falou que era difícil, depois falou que tinha, eu tô indo pra casa de um cara que me chama de gata! Meu, será que é um psicopata, um serial-killer que mata as vítimas com golpes de espada sempre com uma música de algum filme do Quentin Tarantino ao fundo e depois dá aquele gritinho besta de dor estomacal asiática? Bom, mas ele falou o koan lá da gnose, será que tava me testando? Ah, sei lá, tô completamente perdida”
Tocou a campanhia de um predinho na liberdade.
A porta abriu, apareceu um velhinho vestido de Kimono com a cara do Senhor Miyagi.
-Otaviano?
-No filha, tocou elado.
-Não tem Otaviano por aqui? –Nem conhece?
-No.
Sentiu por um minuto um alívio, noutro um pressentimento. Pegou o endereço e mostrou pro velhinho.
-É aqui mesmo né, que estlanho!
-O Senhor é o mestre Kin Lin?
-Sim filha.
-Mas não estava em Miami?
-Onde? Hihi -Nunca sai do Blasil, só antes né, quando molava na Cina! E riu aquela risadinha enigmática.
-O Senhor é um mestre Zen? Perguntou num golpe só.
-Nooooooo, so dono de lestaulante cines né? -Meio zapones também né?
-Já ouviu falar em cavalos-marinhos cor-de-laranja?
-Hihi, silvo no lestaulante.-No existe nada igual né?
“Não existe nada igual !?”
- É bom? E fez uma cara de nojo.
- É luim mas muito mágico né? Faz mulher englavidar!
Lembrou da amiga e como queria engravidar há anos, mas não conseguia, nem com todos os tratamentos. Ela acompanhou todo sofrimento. Sofria junto.
“Será isso Budha? Nada de Otaviano. Ele me mandou aqui, será que ele existe? Ele nem lembrava da Leonor! E o mestre não é mestre é cozinheiro! Vou dar um cavalo marinho frito pra ela? É isso Budha? Sou uma espécie de Deusa da fertilidade? Uma Virgem de Willendorf? Uma Yemanjá? Uma Afrodite? Será isso Budha? Sou uma mensageira? Um tipo raro de cegonha? Será isso Budha? Que seja!”
-E o senhor faz um pra mim? –Tem que ficar gostoso....-É urgente sabe?
-Faço filha, coloco uns tempelinhos e fica com gosto de yakisoba! Vamos plo lestaulante, eu já tava saindo pla lá.
E foram, o velho abriu a porta dos fundos que dava pra uma viela escura e úmida, cheiro de fritura e peixe podre. Dentro ele mostrou a ela um imenso aquário com dezenas de cavalos marinhos laranja:
-Qual a filha quer?
-São laranja, e depois de prontos não existe nada igual né?
-Isso filha.
-Qualquer um mestre. O fato de aquele velhinho ser realmente um mestre disfarçado já estava grampeado na cabeça dela. Ninguém tiraria.
Ele pegou um bem grande, bem laranja. Ela não quis ver o bicho morrer:
-Espero aqui tá mestre?
E foi para o salão pequeno ainda fechado, olhou pro relógio; 7 horas, correria pra levar o “brebage” para amiga, comer ainda naquela noite. Sabia que teria que ser naquele noite.
-Ta celto filha. –Mas a menina tem que comer hoje ta?
“Ele nem se assusta quando o chamo de mestre, está acostumado, que conspiração é essa Budha? E não falei pra quem era, como sabia? E comer hoje?..Serão os astros? Não viaja tanto! Claro, amanhã isso vai estar com gosto de rato podre...”
O prato ficou pronto, o mestre colocou outros quitutes, como legumes e pedacinhos de frango em volta, o cheiro estava muito bom. Ficou com água na boca.
-Quanto devo mestre?
-Eu que devo filha.-Venha semple que quiser, comida aqui é de glaça pla você!
Ela não entendeu nada, mas também não era hora de entender, tinha que voar pra casa. “Por quê o mestre falou que ela tem que comer hoje?”
Chegou.
-Que é isso?
-É o cavalo-marinho laranja. Meio diferente daquilo que pensávamos.-Mas come! –E vai ver que ele não existe mesmo!
-Bom, o cheiro está ótimo.
Comeu tudo. Foram dormir.
Na tentativa seguinte da inseminação artificial, ela milagrosamente engravidou, nasceu um menino. Chamaram-no Sidarta.
Depois de 3 anos vieram monges tibetanos e quiseram levá-lo .Ambas ficaram desoladas mas compreenderam.
O menino foi para o mosteiro de Dharamsala na Índia; residência do Dalai Lama. Elas foram junto morar nos arredores. Visitavam o filho todos os meses.
Chamavam-no; “Pequeno Budha”.
No Brasil, uma borboleta cantava...
Fim
-Porque não? –O que tinha de especial?
-Olha só...
Cavalo-Marinho Cor-de-Laranja (Contos)
-Saco!-Existem sim...
-O que existe?
-Cavalos-marinhos cor-de-laranja, estou desolada...Hippocampus safados!
-E daí?
-E daí cacete? – E daí que falei pra uma amiga que não existiam e existem.
-Qual a diferença?
-Total!- Fiquei de dar a ela um cavalo-marinho laranja, porque pensamos que não existissem, mas existem olha aqui na internet, laranja como uma manga!
-Como daria se não existisse?
-Aí é que vem o melhor, dar a alguém algo que não existe!- Entende?
-Já deu algo que não existe a alguém?
-Diversas vezes.
-Péra aí que vou pegar uma cadeira, o quê por exemplo?
-Tantas coisas!-Difícil pensar agora.
-Fala uma!
-Agora não dá cara!-Preciso procurar alguma forma de achar um cavalo marinho que não existe, embora exista .Beijo.
-Péra!
-Quê saco!
-Depois me dá uma coisa que não existe?
-Sim, o quê?
-Hummm.-Uma borboleta que cante!
-Mais fácil, combinado, beijo!
-Beijo, doida.
E ela foi, perdida entre lampejos desestruturados de derrota, não poderia dar algo que já existisse, poderia sim falar com a amiga, mas ela não era mulher de voltar atrás, precisava dar a ela um cavalo-marinho laranja que não exista, sendo que existem. Sentiu-se de repente dentro de um conto zen budista, isso era um koan, uma pergunta sem resposta, “mas segundo os mestres, nenhuma pergunta é isenta de respostas”. Pensou.
Uma luz veio a sua cabeça, resolveu procurar um mestre zen, sim, lembrou-se de sua época de estudante gnóstica e da terrível pergunta sem nexo que devastou sua mente por meses, meses de noites insones, até que desistiu:
"Qual o som de uma única mão que bate palmas?". “Ah, que pergunta besta! Sei que não entrei em estado de Shamadi nenhum , nem tive iluminação alguma, nem deixei a mente branca, sei que essas noites foram um saco!”
“Se desisti antes, agora não vou desistir, talvez seja uma prova de Budha! Vou procurar um mestre Zen. Na liberdade será que tem?” .
Antes se lembrou de uma amiga que fazia parte de um grupo zen ou algo assim, ligou:
-Leonor?
-Oi amiga, que manda?
-Leonor preciso de sua ajuda, você não me disse outro dia que fazia parte de um grupo zen ?
-Que?- não!- Faço jiu jistu!
-Mas é tudo meio igual né?
A amiga riu:
-Nada a ver, jiu jistu é uma arte marcial, mas vem cá, pra quê você quer um grupo zen?
- Não quero um grupo zen, tenho horror a isso desde a gnose, quero um mestre zen!
-Você que tá engajada nessas orientalidades sabe como eu posso achar um?
-Hum...dexavê...-Ah, meu mestre deve conhecer algum grupo, vou perguntar pra ele, tenho aula amanhã.
-Não Leonor!-Você não tá entendendo!-Preciso de um mestre zen agora!- Ontem!
-Mas porquê criatura? – Que aconteceu?
-Uma hecatombe em minha vida!- Me dá o telefone desse seu mestre de jiu jitsu.
-Olha só, você sabe que eu paquero ele, vê lá hein?
-Ah dá logo! –Sabe muito bem que esses fortões não são minha praia!
-Sei.-Peraí , 5674555, anotou?
-Beijo!
Ligou.
-Alô?
-Oi é o Otaviano?
-Sim?-Quem é?
-É uma amiga da Leonor, sua aluna, preciso da sua ajuda, preciso urgente de um mestre zen!
-Que Leonor?
“Cacete”
-Leonor sua aluna de jiu jitsu!
-Não lembro, são muitos alunos, mas porque precisa de um mestre zen?
-Conhece algum? –Questão de vida ou morte!
-Olha, até conhece o mestre Kin Lin, mas ele ta em Miami.
“Que um mestre zen vai fazer em Miami?”
-Mas deveria estar na China!
-Aí é com ele né?- Mas será que eu não posso ajudar?
-Conhece koans, contos sufis, acredita em milagres? Desesperou-se.
-Conheço um pouco.
-Pode assim, por fone mesmo me responder uma pergunta?
-Posso tentar, mas você não prefere tomar um café?
-Não tenho tempo, olha, presta atenção, tá prestando?
-Toda gata.
“Ai Leonor, fim de carreira hein?”
-Como acho um cavalo-marinho laranja que não exista, se existem cavalos-marinhos cor-de-laranja?
-Quê?
“Roubada”
-Nada cara, beijo!
-Ei péra!- é só explicar direito!
-É isso, preciso de um cavalo-marinho laranja que não exista, só que sei que existem cavalos-marinhos dessa cor!
-Entendi.
-Entendeu? Surpreendeu-se.
-Meu!-Difícil hein?
-Sabe ou não?
-Deixa eu pensar.-Cavalos-marinhos, laranjas, existem, mas não podem, hummmmm.
-Que tá fazendo?- Meditando?
-Eu tenho um cavalo-marinho laranja.
-Grande merda!-No pet shop também tem.
-Mas o meu não existe.
-Ah cara, ta tirando uma?
-Vem aqui em casa e te mostro.
“Sei o que ele quer me mostrar”
-Olha, valeu.-Beijo.
-Você que sabe gata.
-Explica.
-É um cavalo-marinho certo?
-Certo
-Laranja, certo?
-Sim.
-Mas não existe certo?
-Tá pensando que sou retardada?-Vá direto ao ponto! “Putz, falei merda, vai pensar que é indireta”
-Então gata, tenho um.
-Sei, vou chegar aí olhar pro seu aquário de peixinhos e você vai me falar “Olha ele tá lá, só que você não vê porque não existe.” –acertei?
-Você vai ver.
“Que faço agora Budha? Quero uma luz!”
-E como não existe se está aí e eu vou ver?
-E como não existe se está aqui e você vai ver?
-Porra isso é um Koan?
-Quê?
-Meu você nem sabe o que é koan?
-Sei sim.
-O que é?
-Qual o som de uma única mão que bate palmas?
-E descobriu essa porra?
-Claro!
-Me dá seu endereço, tô indo praí, mas ó , eu luto Box!
-Tranqüilo gata.
E ela foi. No carro pensou e repensou. “O cara deve ser um débil mental, primeiro falou que era difícil, depois falou que tinha, eu tô indo pra casa de um cara que me chama de gata! Meu, será que é um psicopata, um serial-killer que mata as vítimas com golpes de espada sempre com uma música de algum filme do Quentin Tarantino ao fundo e depois dá aquele gritinho besta de dor estomacal asiática? Bom, mas ele falou o koan lá da gnose, será que tava me testando? Ah, sei lá, tô completamente perdida”
Tocou a campanhia de um predinho na liberdade.
A porta abriu, apareceu um velhinho vestido de Kimono com a cara do Senhor Miyagi.
-Otaviano?
-No filha, tocou elado.
-Não tem Otaviano por aqui? –Nem conhece?
-No.
Sentiu por um minuto um alívio, noutro um pressentimento. Pegou o endereço e mostrou pro velhinho.
-É aqui mesmo né, que estlanho!
-O Senhor é o mestre Kin Lin?
-Sim filha.
-Mas não estava em Miami?
-Onde? Hihi -Nunca sai do Blasil, só antes né, quando molava na Cina! E riu aquela risadinha enigmática.
-O Senhor é um mestre Zen? Perguntou num golpe só.
-Nooooooo, so dono de lestaulante cines né? -Meio zapones também né?
-Já ouviu falar em cavalos-marinhos cor-de-laranja?
-Hihi, silvo no lestaulante.-No existe nada igual né?
“Não existe nada igual !?”
- É bom? E fez uma cara de nojo.
- É luim mas muito mágico né? Faz mulher englavidar!
Lembrou da amiga e como queria engravidar há anos, mas não conseguia, nem com todos os tratamentos. Ela acompanhou todo sofrimento. Sofria junto.
“Será isso Budha? Nada de Otaviano. Ele me mandou aqui, será que ele existe? Ele nem lembrava da Leonor! E o mestre não é mestre é cozinheiro! Vou dar um cavalo marinho frito pra ela? É isso Budha? Sou uma espécie de Deusa da fertilidade? Uma Virgem de Willendorf? Uma Yemanjá? Uma Afrodite? Será isso Budha? Sou uma mensageira? Um tipo raro de cegonha? Será isso Budha? Que seja!”
-E o senhor faz um pra mim? –Tem que ficar gostoso....-É urgente sabe?
-Faço filha, coloco uns tempelinhos e fica com gosto de yakisoba! Vamos plo lestaulante, eu já tava saindo pla lá.
E foram, o velho abriu a porta dos fundos que dava pra uma viela escura e úmida, cheiro de fritura e peixe podre. Dentro ele mostrou a ela um imenso aquário com dezenas de cavalos marinhos laranja:
-Qual a filha quer?
-São laranja, e depois de prontos não existe nada igual né?
-Isso filha.
-Qualquer um mestre. O fato de aquele velhinho ser realmente um mestre disfarçado já estava grampeado na cabeça dela. Ninguém tiraria.
Ele pegou um bem grande, bem laranja. Ela não quis ver o bicho morrer:
-Espero aqui tá mestre?
E foi para o salão pequeno ainda fechado, olhou pro relógio; 7 horas, correria pra levar o “brebage” para amiga, comer ainda naquela noite. Sabia que teria que ser naquele noite.
-Ta celto filha. –Mas a menina tem que comer hoje ta?
“Ele nem se assusta quando o chamo de mestre, está acostumado, que conspiração é essa Budha? E não falei pra quem era, como sabia? E comer hoje?..Serão os astros? Não viaja tanto! Claro, amanhã isso vai estar com gosto de rato podre...”
O prato ficou pronto, o mestre colocou outros quitutes, como legumes e pedacinhos de frango em volta, o cheiro estava muito bom. Ficou com água na boca.
-Quanto devo mestre?
-Eu que devo filha.-Venha semple que quiser, comida aqui é de glaça pla você!
Ela não entendeu nada, mas também não era hora de entender, tinha que voar pra casa. “Por quê o mestre falou que ela tem que comer hoje?”
Chegou.
-Que é isso?
-É o cavalo-marinho laranja. Meio diferente daquilo que pensávamos.-Mas come! –E vai ver que ele não existe mesmo!
-Bom, o cheiro está ótimo.
Comeu tudo. Foram dormir.
Na tentativa seguinte da inseminação artificial, ela milagrosamente engravidou, nasceu um menino. Chamaram-no Sidarta.
Depois de 3 anos vieram monges tibetanos e quiseram levá-lo .Ambas ficaram desoladas mas compreenderam.
O menino foi para o mosteiro de Dharamsala na Índia; residência do Dalai Lama. Elas foram junto morar nos arredores. Visitavam o filho todos os meses.
Chamavam-no; “Pequeno Budha”.
No Brasil, uma borboleta cantava...
Fim
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